Sobre o Blog do Toninho

O Blog busca retratar coisas da vida interiorana e do meu interior, numa abordagem que mistura reflexão, notícias, riso, poesia, musicalidade, transcedentalidade e outras "cositas más". Tudo feito com produções próprias, mas também com a reprodução do pensar ou do sentir dos grandes gênios que o país e a humanidade pariram.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Lembrando o "sor" Osmar



Nesses dias de magros assuntos, que tal um conto?

“Eu 15 anos, nos meus trinta. Ela uns olhos azuis com gotas de horizonte por orvalho. A pele de nuvem. Houve uma época, em minha infância que eu pensava que as nuvens eram de algodão, e que grandes escadas postas nas montanhas elevavam homens para cortar as nuvens e vende-las em embalagens em que se lia: algodão. Eu era um menino do campo. E era com nuvens alvas que minha mãe limpava as mazelas do corpo rasgadas pelos campos de futebol. Seria, portanto, um pedaço de céu com nuvens que me curaria a alma inquieta na gaiola do corpo ansiando infinito. Como o algodão suga e se encharca das chagas ela poderia se encharcar de mim me arrebatando as magoas liquidas da solidão dos meus vícios.
Era sempre ela que aparecia e era aquela réstia de céu dentro de casa. A sombra fugia a sua chegada. Ela carregava um micro sistema de luz em suas pegadas. Eu dobrava os caminhos torcia as esquinas para encontrar com ela, só para poder dobrar o joelho em sua presença. Eram joelhos dados a reverência.
Às vezes eu chegava na sala e ela sentada, as pernas enormes semi-abertas, o corpo como um pano mole de preguiça se ajustando aos contornos da cadeira, acompanhado as paredes do vestido. Me mirava, depositando as duas fatias de céu em mim, e abria um leve sorriso. Mas tão leve que mal marcava os cantos da boca, como se uma borboleta ensaiasse um vôo pequenino sem o fazê-lo. Depois, seguia fingindo viajar dentro de si, numa distração sem par. Minha língua engordava de desejo de compreender o corpo dela letra por letra célula por célula pelo por pelo. Era um desejo físico de provar as moléculas, as gotas desconhecidas, beber-lhe a saliva do sexo o cheiro da axila a garapa da boca. A língua é órgão afoito ao sabor.
Um dia, dessas coisas da sala, era verão e brotou uma primavera no colo dela. Foi no momento em que ela, se ajeitando na cadeira, abriu mais as pernas. Eu tive certeza que ela fazia por preencher seu gosto de ter meu olhar noturno atilhado ao céu dos olhos dela.
Me afastei.
Me chamou.
Ardeu um fogaréu em mim.

Tem lances, no jogo de futebol, em que o adversário faz um movimento tão violentamente repentino que nos prega ao chão, e a bola passa lenta, debochada, entre as pernas, um segundo carrega sem esforço um século na ilharga. E a gente ali, pasmo. O pensamento a reverter a jogada, já que o corpo carrega o mundo. A voz dela era assim, como um adversário que faz uma jogada surpreendentemente previsível e nos pega desprevenido. Eu vi o som de sua fala, como uma bola debochada, passar por entre as pernas da minha fraca vontade de afastar-me. O que tinha de parentesco com o Garrincha aquela voz de quincha nua?
Reparei que minha língua se intumescia enredada nas curvas do desejo. Aquele chamado significava muito. Finalmente iria soletrar, numa língua arrastada, lambida, os escaninhos escondidos de um corpo que era puro mistério. Enquanto o comum dos homens deixa de ser comum por repartir o pão, eu repartiria a alma. Eu treparia pelas paredes do mundo e escreveria o nome dela nas partes pudicas da galáxia subiria nu ao céu e faria escorrer uma missa entre unhas e dentes e teria o gosto do corpo dela preso na ponta da língua de inventar lambidas.
A voz dela era uma isca do avesso. Era como se minhas pernas se abrissem voluntariamente para o aplauso da passagem da bola. Eu tinha novamente a chance de levar um gol nos descontos. Senti a saliva quente daquela boca que abrigou meu nome, encharcando os fonemas da fala que uso. Fustiguei o contentamento. Interrompi o percurso do sorriso. Me voltei, desinteressado. Já me via lambuzado da hóstia dos mamilos dela, santificado por suas auréolas bentas, bebendo o suor no cálice sagrado do púbis. Carregando outra vez a cruz de ser homem. Eu, que não passava de um triste menino do campo.
Não era somente meu prazer que estava na luz dos lábios, ela transgredira a fé no pudor nostálgico de seus “aí não pode.”.
Ela se abstinha de sentir um prazer que o corpo carregava na pele quente, e isso, por si só, já era pecado. Mas maior pecado ainda, era não permitir que um outro corpo sentisse o prazer que ela escondia entre as mãos, entre os lábios, na mordida branca e firme de seus dentes...
Diante da irremição terrível de um pecado mortal, ela entreabriu os lábios imensos e ensinou a minha língua a fala afável do favo, caminho que conduz ao mel. De suas axilas aprendi a fala agridoce da floresta. Do cálice escuro de seu sexo aprendi o idioma noturno das águas salobras. E há ainda muitos centímetros de idioma a serem aprendidos e descobertos. Não temos pressa.”

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Pensar é preciso!

Para não dizer que foi por falta de aviso...