Sobre o Blog do Toninho

O Blog busca retratar coisas da vida interiorana e do meu interior, numa abordagem que mistura reflexão, notícias, riso, poesia, musicalidade, transcedentalidade e outras "cositas más". Tudo feito com produções próprias, mas também com a reprodução do pensar ou do sentir dos grandes gênios que o país e a humanidade pariram.

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Momento poético


Aceitarás o amor como eu o encaro?…

Aceitarás o amor como eu o encaro ?…
… Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.
Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
Que grandeza… a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

Mário de Andrade

Altas conexões



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Música para os meus ouvidos


Não sou saudosista e prefiro sempre andar para frente, mas realmente em 2000 e pouco tinha mais humanos no mundo do que nesse 2000 e louco, no qual quase tudo parece meio artifical, mecanizado.

Um mundo de ovelhas desorientadas diante dos caminhos claros que conduzem para longe do abate e de lobos famintos de tudo que produz alma e ar para respirar e ainda de uma multidão que se auto-abandona e encontra dificuldade de reconhecer o próprio rosto no espelho.

Ao mesmo tempo que implora por igualdade entre os seres, o mundo clama para que cada um seja o que é e saiba o seu papel em meio a todo esse caos.




Licença poética




Peço licença uma vez mais para entregar-lhes novas palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...


Podes crer que eu me rendo aos teus encantos...

E eles são tantos!

Me rendo completamente, ainda mais se estiveres usando calcinha de renda.

Rir é o melhor remédio



domingo, 3 de novembro de 2019

A praça é nossa



Nesses tempos difíceis, de estímulo desenfreado ao individualismo e virtualização das relações, de criminalização da política e desrespeito escancarado às regras do jogo democrático, de desmonte da máquina pública e do conceito de poder público indutor do progresso econômico com base no desenvolvimento social, nem tudo é terra arrasada ou más notícias. Falo da previsão de revitalização da Praça Marquês de Herval, anunciada no último dia 26 em encontro promovido pelo Diretório Municipal do PT; obra que deverá ser possibilitada a partir de emenda parlamentar, no valor de R$ 250 mil, indicada pelo deputado federal Henrique Fontana (PT).

Sobre a emenda em questão, ressalto que a mesma partiu de demanda que me foi apresentada pelo responsável pela pasta da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, meu colega de governo Chico Gonçalves. Ao receber tal pedido, fui bater na porta do respeitável Cláudio Martins, ex-prefeito de Jaguarão e um dos grandes líderes políticos da nossa região que, atualmente, trabalha na assessoria do mandato do deputado estadual Zé Nunes, outro grande parceiro de Herval e dos hervalenses. Cláudio, de pronto, levou adiante esse pleito, no qual contou com a generosidade e o compromisso pessoal de Henrique Fontana, com vistas ao seu atendimento.

Vale lembrar que Herval (município de pequeno porte) disputou esse investimento com dezenas de municípios, sendo contemplado em detrimento de alguns até maiores, fato que merece ser muito valorizado, ainda mais diante do cenário atual de cortes em programas e investimentos federais, no qual as emendas se tornaram uma das fontes principais e mais concorridas na corrida dos municípios em busca de recursos para realizar investimentos. Vale lembrar ainda, o trabalho de Henrique Fontana em prol da nossa terra há vários anos, especialmente nos períodos em que foi líder no Congresso dos governos Lula e Dilma, tendo atuação decisiva em conquistas como, por exemplo, os cerca de R$ 1,6 milhões destinados a Herval para a construção de pontes e melhorias em estradas rurais, no maquinário entregue ao município por meio do PAC Máquinas (patrola, retroescavadeira e caminhão) e os valores em torno de R$ 2,5 milhões depositados pela Funasa nos cofres da prefeitura para instalação de sistema de abastecimento de água nos assentamentos São Virgílio, Cerro Azul e Santa Rita III.

Sobre esse investimento, reitero o que disse no início. Nesses tempos de individualismo e de virtualização das relações, com a maioria das pessoas buscando refúgio ou exposição nas redes sociais, a revitalização da praça central de nossa cidade é um convite aos hervalenses e visitantes para que interajam e convivam mais entre si. Afinal, praças públicas são sinônimo de fruição, assim como são sinônimo também de encontro entre os diferentes e as diferenças, algo tão primordial nesse momento de tanta e tamanha intolerância e golpes mortais na democracia, conforme frisei anteriormente.

Em relação a busca de uma fonte de recursos para custear a obra pretendida de revitalização da praça, fizemos nossa parte. O deputado Henrique Fontana e os demais atores envolvidos nessa primeira etapa também cumpriram seu papel. Agora é continuar a caminhada e esperar que o governo federal cumpra a parte que lhe cabe que é, depois de cumpridos todos os ritos e trâmites burocráticos, assegurar o pagamento dos recursos previstos e necessários à execução dessa obra. E, depois da mesma ser finalizada, como diz o querido e vibrante Henrique Fontana, que aproveitemos a praça de cara nova e sejamos felizes.


quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Música para os meus ouvidos


Dispensa comentários ou maiores delongas. Um som que esbanja embalo, afinação e estímulo ao bom da vida, que costuma ser o mais simples e com o pé no chão.




terça-feira, 29 de outubro de 2019

Henrique Fontana indica emenda para revitalização da praça



Sábado, 26, foi um dia marcante para o nosso município. Em encontro promovido pela direção municipal do Partido dos Trabalhadores, na sede do Rotary Clube, com a presença do deputado federal Henrique Fontana (PT), do deputado estadual Zé Nunes (PT) e do ex-prefeito de Jaguarão, Cláudio Martins, foi anunciada emenda parlamentar no valor de R$ 250 mil, de iniciativa do mandato de Henrique Fontana, destinada à obra de revitalização da Praça Marquês de Herval.

Essa emenda partiu da demanda apresentada pela pasta da Cultura, Turismo, Esporte e Lazer do município ao secretário de planejamento, Toninho Veleda, que por sua vez, acionou Cláudio Martins, atualmente assessor do mandato do deputado estadual Zé Nunes, o qual levou adiante essa pauta e construiu as pontes necessárias para assegurar a indicação desse investimento junto ao orçamento da União.

Em sua fala, Henrique Fontana ressaltou sua relação com Herval, que já vem de longa data e seu compromisso de trabalhar em prol e bem representar o povo hervalense na Câmara dos Deputados. Ele também falou do momento difícil vivido no país, fruto das políticas equivocadas, retrógradas e perversas do governo Bolsonaro, situação que contribui para o aumento da corrida dos municípios em busca das emendas parlamentares, diante do corte dos programas e dos investimentos públicos promovidos pelo governo federal. Segundo Fontana, as emendas ajudam, porém os problemas dos municípios não serão resolvidos através delas. Ademais, mais que qualquer favor, esse é um direito dos cidadãos, já que são investimentos pagos com recursos públicos, enfatizou o deputado.

Toninho Veleda, que também é presidente municipal do PT, agradeceu o mandato dos dois deputados presentes no encontro, em especial ao ex-prefeito Cláudio Martins, não apenas pela emenda ora anunciada, mas pela relação de parceria e pelo apoio e encaminhamento permanente de pleitos do município. Toninho também ressaltou a importância da obra de revitalização da praça central, pois de acordo com suas palavras, nesses tempos de ataques à democracia e estímulo ao individualismo, a praça simboliza o encontro dos diferentes e das diferenças, além propiciar o lazer, o convívio e a fruição das pessoas da nossa comunidade e daqueles que nos visitam.



quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Ato político


Ser contrário ou não se render ao governo Bolsonaro e seus asseclas, não é uma questão meramente partidária ou bancar uma posição ferrenhamente oposicionista. Ser contrário e esse governo (se é que se pode chamar de governo!) é ser a favor da lógica e das funções mínimas esperadas em qualquer administração pública.

O que pessoas normais esperam de governos


O que é normal, ou não, está longe de ser um consenso, mas quando se fala em “pessoas normais”, aponta-se para aquelas que querem o que todos querem: recursos para cumprir minimamente com as necessidades suas e de familiares – casa, emprego, saúde, alimentação, educação para si e os filhos, recreação, saneamento para ter acesso a água potável e ambiente sadio e por aí vai. Ninguém precisa ser escandinavo para ter aspiração e direito a esses bens. Pessoas normais querem viver em dignidade.

O discurso bobalhão de bílis com preconceito que elegeu Jair Bolsonaro não traz nada disso. Fazer pistolinha com a mão não torna ninguém digno – torna, quando muito, digno de piedade, de pena.
Governar é usar poder para cobrar tributos e aplicar sua receita naquilo que pessoas normais demandam, principalmente numa sociedade de desigualdades abissais como a nossa, em que a estabilidade política e social depende de ações compensatórias do estado. O resto é luxo e luxo é para ser custeado por quem o quer. A ciranda financeira, por exemplo, é para quem tem sobra e é dos bancos o papel mantê-la, não do estado.
Mas os atores que Bolsonaro trouxe para a máquina do estado entendem que cabe a nós todos, principalmente aos menos aquinhoados, pagar pela saúde financeira dos bancos que, mesmo em período de crise econômica, costumam fazer lucros enormes com os tomadores de seus serviços. São os que não têm o mínimo para garantir sua dignidade que custeiam o luxo dos que têm em excesso.
E, no meio disso, entre indignos e luxuosos, estão alguns servidores públicos com polpudos ganhos que fazem o serviço dos poderosos e ricos para continuarem a se diferenciar da ralé! O deles está garantido com Bolsonaro – basta fazerem o que os ricos esperam deles: perseguir o que sugerem que o estado deveria orientar suas prioridades para os fracos e não os fortes.
Não é por outro motivo que Lula está preso. Ele fez o que pessoas normais esperavam de seu governo. Deu-lhes dignidade, mesmo que não cobrando fatura exacerbada dos luxuosos. Mas a só “inversão” das prioridades – na visão dos que têm muito – era o suficiente para não querê-lo de volta. Mesmo que absolutamente disfuncional, preferem o governo da pistolinha com a mão a quem cumpre compromisso com a maioria.
O resultado está aí: temos um governo que não governa. Especializou-se na baixaria. Na rixa, na briga de boteco. Ora sua ex-líder no Congresso é chamada pela turma do Presidente – em virtude de sua avantajada circunferência – de “Peppa Pig”, no que ela replica e xinga os filhos do Presidente de eunucos ou de “veados”, a vomitar todo seu preconceito sexista. E, para o Presidente, a primeira-dama francesa é feia. Nisso se resumem os esforços bilaterais com aquele país europeu.
O país está literalmente paralisado. O óleo que invadiu as praias do nordeste não tiveram nenhuma prioridade do Ministério do Meio Ambiente, mesmo às vésperas da alta estação, em que a beleza do litoral nordestino atrai visitantes de todo Brasil e do exterior, dinamizando o turismo que é essencial para a economia da região. O ministro da educação, a par de jogral no YouTube, não faz nada. Prefere vomitar seu preconceito contra a comunidade universitária, exigindo mais polícia nos campi Brasil afora, não para garantir segurança, mas para vigiar a academia, feita, a seu ver, de maconheiros comunistas. O chanceler – ah, o chanceler! – manda retirar o busto de San Tiago Dantas do palácio do Itamarati, por atribuir-lhe o ato subversivo de ter estabelecido relações diplomáticas com a então URSS. No ministério dos direitos humanos, a ministra nomeia ressentidos da democratização para a comissão de desaparecidos, para negarem ter havido desaparecidos na ditadura, que eles também negam.
Governar que é bom, nada. Enquanto isso, avança a agenda de supressão de direitos sociais, trabalhistas e previdenciários, no Congresso Nacional, com suporte da bancada do chamado “centrão”, à revelia, mesmo, desse governo que só sabe brigar e insultar. O partido de Bolsonaro afunda no lodaçal das acusações mútuas de malfeitos de suas lideranças, enquanto ele posa no Japão com fraque, faixa e medalhas, dignas de um Idi Amin Dada. Evita banquetes por não gostar de comida japonesa. Prefere ir com seu ajudante de ordens a uma lanchonete de frituras, sempre observando de soslaio a braguilha dos japoneses, a conferir se têm mesmo o sexo pequeno, como dita o preconceito de botequim que cultiva com esmero.
Querer que o governo governe não é pedir demais. Mas, com o pandemônio que se instalou em Brasília, virou quimera. A única esperança repousa hoje no STF que, se assumir seu papel o de guardião da constituição, talvez decida, a partir desta semana, que a prisão de Lula, contrária à presunção de inocência, é ilícita. Teremos Lula livre, em breve, para liderar a conciliação entre sensatos dos mais diversos matizes políticos e ajudar a reorganizar o cenário nacional, na perspectiva de voltar a Governar, como já fez, com “G” maiúsculo. E, para pessoas normais, esse governo, minúsculo, ficará para a história como o período mais bizarro e vergonhoso da existência de nossa estatalidade.

Por Eugênio Aragão



Nem só de pão viverá o homem




Momento poético


Tenho fome de tua boca

Tenho fome de tua boca, de tua voz, de teu pêlo
e por estas ruas me vou sem alimento, calado,
não me nutri o pão, a aurora me altera,
busco o som líquido de teus pés neste dia.
Estou faminto de teu riso resvalado,
de tuas mãos cor de furioso silo,
tenho fome da pálida pedra de tuas unhas,
quero comer teu pé como uma intacta amêndoa.
Quero comer o raio queimado em tua formosura,
o nariz soberano do arrogante rosto,
quero comer a sombra fugaz de tuas sobrancelhas.
E faminto venho e vou olfateando o crepúsculo
buscando-te, buscando teu coração quente
como uma puma na solidão de Quitratúe.

(Pablo Neruda)

segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Licença poética



Peço licença novamente para entregar-lhes outras palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...


Se ficares um milímetro mais bela, as estrelas apeiam lá do alto e vêm fazer uma serenata na tua janela.

Ou quem sabe, te apanham no colo, raptam e se atrevem a colocar-te para brilhar no lugar delas.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Uma porta aberta para o futuro



Está em curso em Herval, talvez uma das melhores iniciativas do poder público local nos últimos tempos. Falo do Inventário do Patrimônio Histórico de Herval, uma iniciativa da Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Esporte e Lazer, com apoio da Secretaria Municipal de Planejamento, a partir de convênio firmado com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFPEL. O trabalho tem como objetivo criar as bases para o resgate e preservação do patrimônio material de nossa cidade, possibilitando a construção de políticas e abordagens públicas nessa área. Contudo, no momento em que se realiza, assim como pela metodologia utilizada que parte do envolvimento das forças vivas do município nesse trabalho, existe a expectativa que o resgate intentado fomente ou mesmo possa ir além do aspecto arquitetônico.

Vivemos um tempo de obscurantismo no Brasil, no qual não apenas o espaço público, mas o conhecimento científico e a pesquisa são demonizados abertamente, atacados e desmontados por forças políticas, atores sociais e agentes públicos que deveriam cumprir o papel de incentivá-los e fortalecê-los. Então, é muito significativo que o trabalho em questão seja capitaneado e conte com a expertise de uma Universidade Pública.

Ademais, um patrimônio arquitetônico, seja ele qual for, não é obra do acaso. As moradias ou edificações com caráter público são sempre expressão de um povo, isto é, da cultura e das relações sociais, econômicas, políticas, ambientais estabelecidas num determinado lugar. Desta forma, é muito valoroso que esse trabalho tenha partido da escuta das vozes locais, as quais puderam ou poderão trazer a sua percepção e o relato sobre alguns personagens e fatos que marcam a nossa história, desde a formação até os dias atuais.

Na primeira roda de conversa dos professores e estudantes com o público e dirigentes municipais, transcorrida dia 5 de outubro, além da nossas belezas naturais exuberantes, ponderei questões relativas à formação e construção histórica de Herval, ligada umbilicalmente a então Coroa Portuguesa, às refregas pela demarcação do território nessa região fronteiriça e às grandes propriedades rurais, que constituíram a matriz e o horizonte de Herval e dos hervalenses durante um longo período. Uma matriz e um horizonte que nos últimos tempos, em pouco mais de 20 anos, sofreram uma acentuada mutação ou alteração (sem entrar no mérito do assunto), a partir de pelo menos cinco fatos marcantes, sendo o primeiro natural e os demais sociais e econômicos. São eles: a “invasão’ dos javalis que, num período de forte seca, cruzaram o rio que nos separa do Uruguai; a instalação de uma dezena de assentamentos rurais (sem nenhum conflito agrário, caracterizando a chegada de populações oriundas de outras regiões do RS e simbolizando a ruína de um modelo produtivo e de sociedade); a emancipação de Pedras Altas que retirou de Herval cerca de 40% do seu território; o plantio indiscriminado de árvores exóticas e mais recentemente o plantio acentuado de soja, um cultivo não originário e até então pouco difundido por aqui.

Como ensinou Jose Martí, “nenhum povo é dono do seu destino, se antes não é dono de sua cultura”. Então, que esse trabalho de resgate do patrimônio histórico da nossa cidade, nos permita aprofundar o olhar sobre as raízes, teias, cenários e conexões construídas ontem e hoje no âmbito da Sentinela da Fronteira, passeando não apenas pelos antigos casarões, mas descortinando os "casebres” e até as “senzalas” de outrora; na perspectiva tanto de redescobrir ou ressignificar nossa história quanto de abrir novas portas para o nosso futuro.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Música para os meus ouvidos


Nesses dias de tantos desentendimentos (por nada, muitas vezes) e tão arraigados ressentimentos (por qualquer motivo, diga-se de passagem), sempre bom lembrar que estamos por aqui de passagem e a única bagagem que se leva são as sementes  positivas e negativas que plantamos no planeta e nos outros humanos.

Pode soar ingênuo ou deveras sentimental, mas mais que nunca é tempo de sonhar e seguir o embalo das canções que falam da vida leve e simples e verdadeira, sem nunca fugir do tempo ruim ou insano...




Parada pedagógica




Ato político


A Reforma Tributária da Oposição

Uma das principais causas da manutenção da desigualdade social no Brasil é a tributação injusta, que pesa sobre os mais pobres e privilegia os mais ricos. Uma inversão perversa de critérios, que não só prejudica os trabalhadores como limita a arrecadação e, por consequência, a capacidade de ação do estado em beneficio do povo. Assim, os pobres perdem duplamente: pagam mais impostos, proporcionalmente aos ricos, e têm reduzido o seu direito de acesso a serviços públicos. Este é raciocínio básico que justifica o projeto de “Reforma Tributária Justa, Solidária e Sustentável”, lançado ontem no Congresso pelos seis maiores partidos de oposição – PTPCdoBPDTPSBPSOL e Rede. A proposta é um contraponto à reforma apresentada pelo governo, que simplifica a tributação, mas mantém a injustiça.

inversão do critério justo de tributação é flagrante na comparação do Brasil com os maiores países do mundo. Os impostos sobre renda e patrimônio representam quase 40% da arrecadação tributária dos países da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico)*, que estão entre os mais ricos do mundo, enquanto que no Brasil a taxação da riqueza representa apenas 22,7%. Já o imposto sobre consumo, que pesa mais sobre trabalhadores e a população pobre, representa 32,4% da arrecadação total dos países da OCDE, e quase 50% no Brasil. Esta diferença gritante sustenta a desigualdade no Brasil.

A proposta de reforma tributária apresentada pela oposição, como alternativa ao projeto neoliberal em discussão no Congresso, enfrenta energicamente esta injustiça, porque taxa mais a renda e menos o consumo. Impõe impostos à compra de bens de luxo, como iates, lanchas e helicópteros, que hoje são isentos de tributação; tributa grandes fortunas, lucros, dividendos e grandes heranças; cria novas faixas de Imposto de Renda para quem ganha mais; e diminui a cobrança de imposto sobre a compra de itens básicos, como alimentos e bens de consumo das famílias.

O projeto de “Reforma Tributária Justa, Solidária e Sustentável” também demonstra que a unidade das forças políticas progressistas e democráticas contra a extrema-direita e o neoliberalismo é viável e necessária, tanto nas ruas quanto nos movimentos sociais e sindicais e no parlamento.


*Os países da OCDE: Alemanha, Austrália, Áustria, Bélgica, Canadá, Chile, Coreia do Sul, Dinamarca, Eslováquia, Eslovênia, Espanha, Estados Unidos, Estônia, Finlândia, França, Grécia, Holanda, Hungria, Islândia, Irlanda, Israel, Itália, Japão, Letônia, Lituânia, Luxemburgo, México, Nova Zelândia, Noruega, Polônia, Portugal, Reino Unido, República Checa, Suécia, Suíça e Turquia.



sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Momento poético


O MAPA


Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)

E talvez de meu repouso...


Mário Quintana, in 'Apontamentos de História Sobrenatural'

Altas conexões



terça-feira, 1 de outubro de 2019

Ato político


Para que não se esqueça e nunca mais aconteça. Se é que já não estamos imersos novamente em antigos filmes de terror. Filmes da vida real, com gente de carne e osso. Filmes do qual somos protagonistas, que dóem e matam de verdade.

Tabacaria, um sinal de alerta
Filme mostra a ascensão do nazismo na banalidade do cotidiano


O filme a ser visto no momento se chama “Tabacaria”, dirigido por Nikolaus Leytner. Tem os ingredientes necessários para pegar o espectador. É uma narrativa. Conta uma história. Mais de uma. Em primeiro plano, a amizade entre Sigmund Freud e um jovem de 17 anos, aprendiz numa loja de charutos, de jornais e de revistas para adultos. Em pano de fundo, a ascensão do nazismo. Nas entrelinhas, a tese da “banalidade do mal”, consagrada por Hannah Arendt. O horror cresce sem que aparentemente ele possa se tornar algo definitivo. É o vizinho que denuncia. Pouco a pouco, o “amor” cívico multiplica os delatores.

Em pouco tempo, a atmosfera torna-se sufocante. O filme mistura a psicanálise emergente com o nazismo ascendente. Entre sonho e realidade, ficção e história, sobressai o possível: nada nos salva definitivamente do salto no escuro. Se o jovem Franz sofre por amor, Freud, no crepúsculo da libido, goza com os charutos que fuma. Nesse mundo de envelhecimento e aprendizagem, entre duas grandes guerras, germina o ovo da serpente. A democracia foi usada como trampolim. Muita gente vê possíveis paralelos com o mundo atual de ascensão da extrema direita em muitos países. Quando o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, manda “mirar na cabecinha” dos bandidos, não necessariamente em situação de confronto, continuamos no Estado de Direito? Quando uma menina de oito anos é assassinada por um representante do Estado, num disparo absurdo, ainda é a normalidade?

Quando uma vereadora negra e lésbica, militante de esquerda, que denunciava a violência policial, sofre um atentado e autoridades empenham-se em impedir o esclarecimento do caso, onde estamos? “Tabacaria” fala de amor e amizade no exato momento em que o ódio deslancha. Freud é apresentado como o doutor que “conserta a mente das pessoas”. Há “conserto” para a mentes das pessoas tomadas pela vontade de oprimir, de classificar, de rotular, de catalogar e de hierarquizar por classe, cor, ideologia, gênero, poder aquisitivo ou moralidade?

Não é o caso de discutir sobre a crença ingênua na cura ou no “conserto das mentes”, mas de perguntar: estamos num período de transição, desses em que “tudo o que é sólido desmancha no ar” sem que percebamos o tamanho da hecatombe? Por trás da fumaça dos charutos, homens voltam a sacar seus revólveres quando ouvem a palavra cultura, empunham seus fuzis quando escutam a expressão Direitos Humanos, revoltam-se contra a transformação dos costumes, tentam parar o trem da história. Não se dão conta de que o trem só para com explosão.

Quando a justiça se torna suspeita, ainda temos certeza de alguma coisa? Quanto a garantia das liberdades individuais se transforma em símbolo de impunidade e o punitivismo que atropela as regras do jogo se converte em garantia de justiça, ultrapassamos um limite sem retorno possível, salvo traumaticamente? Quando um juiz “vaza” para ganhar a opinião pública e descarta acusações graves contra si por terem sido vazadas, que posição ocupamos, a de cínicos, de oportunistas ou de homens perplexos diante de uma velha tabacaria?

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Licença poética



Peço licença uma vez mais para entregar-lhes novas palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...

Dizem as fadas que Deus tem andado espantado por ter acertado tanto em cada feição, cada gesto, cada detalhe, cada curva, cada contorno teu.


Falam até que o espanto é tão grande que o criador inspirou um concerto de fados, feito sob medida e como uma espécie de serenata a ser soprada todas as noites em teu ouvido.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

Música para os meus ouvidos


Quem tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto em tempestade decepado
Entre os dentes segura a primavera




Autorretrato


"Era sol que me faltava"

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Ato político


Tempo de juntar forças para derrotar o adversário em comum e fazer brilhar uma luz no final do túnel desse mundão que caminha para o brejo a passos largos...

Tempo de coalizões (por Manuel Castells)
Manuel Castells (*)
Estamos indo para as quartas eleições em quatro anos. Porque alguns políticos ainda não assumiram a nova realidade política: vivemos em tempos de coalizões. A crise global de legitimidade política, cujas causas e consequências analisei em meu livro “Ruptura”, tem uma consequência direta nas democracias parlamentares: a fragmentação do voto entre opções cada vez mais diversas. Dada a frustração generalizada em relação aos partidos tradicionais, de direita ou esquerda, há uma busca de outras propostas que ofereçam esperança. Sobretudo entre os jovens que não estão presos ao passado, diferentemente dos maiores de 60 anos que estão apavorados ante o futuro.
A erosão da democracia liberal pode ser lenta ou pode se acelerar em momentos de concatenação de crises econômicas e políticas. Como ocorreu na França, com a queda simultânea de todos os partidos e a emergência de Macron como alternativa à extrema-direita. Embora a persistência da ruptura entre política e sociedade se manifeste nas revoltas recorrentes dos “coletes amarelos”. Ou como ocorre no Reino Unido, com a ruptura entre partido e nos partidos em relação ao Brexit. Quem pensaria que a democracia parlamentar admirada por todos suspenderia o Parlamento para não debater um tema fundamental?
Na Espanha, a conjunção de uma crise econômica, da corrupção política, da resistência das indignadas e da crise da relação entre Espanha e Catalunha questiona o bipartidarismo imperfeito característico da nossa democracia. Os dois grandes partidos perderam uma parte substancial de seus votos. Surgiram alternativas no lado da esquerda tradicional (Podemos e suas confluências) e no lado da direita e do nacionalismo espanhol (Cidadãos e Vox). O PP, devastado por denúncias de corrupção, foi o que mais sofreu. O PSOE estava em queda livre e em processo de autodestruição conspirativa até que a improvável ressurreição de Pedro Sanchez fez renascer esperanças de uma volta à socialdemocracia. Tanto a nova esquerda como o independentismo ‘pactista’ catalão apostaram nesta regeneração socialista. Tais convergências beneficiaram o PSOE, mas não até o ponto de proporcionar uma maioria suficiente para governar sozinho. A Espanha está na mesma situação dos países de seu entorno, alguns degraus acima ou abaixo, dependendo do caso. O governo de coalizão, cooperação, colaboração, ou a fórmula que seja, é a regra, não a exceção.
Essa necessidade também diz respeito à direita. Mas na Espanha, os partidos de direita, decididos a se coligar ainda que ao custo de abandonar o centro, têm uma dificuldade adicional. No parlamento espanhol há, de forma estável, cerca de trinta cadeiras de partidos nacionalistas catalães e bascos que, em certas condições, podem abster-se em favor de uma aliança de esquerda. E sempre votaram contra uma direita nacionalista espanhola que chega ao governo com uma faca entre os dentes. Ou seja, para governar a direita tem que chegar a 176 cadeiras o que estabelece um nível muito alto, só superável em uma situação de emergência, com uma Catalunha em rebelião aberta e o Estado espanhol jogando sua sobrevivência. Em tal situação, o PSOE também chegaria a 155. Seria uma coalizão, ainda que não para governar, mas sim para reprimir.
Enquanto continuar a crise política na transição social, tecnológica e institucional que vive o mundo, crescerá a fragmentação da representação democrática, o que faz dos governos de coalizão uma necessidade. Inclusive entre forças antagônicas ou ideologicamente incompatíveis, como ocorre na Itália, onde o Partido Democrático (PD) e o Cinco Estrelas viraram as orelhas ao lobo do neofascismo de Salvini. Não podem permitir nem uma crise que leve a eleições até que as águas se acalmem porque no ambiente atual as eleições seriam vencidas por um perigoso Salvini revanchista.
No entanto, não é o caso de tomar a palavra “coalizão” literalmente. O termo “cooperação” é mais preciso. Como mostra o caso da Dinamarca e, sobretudo, o de Portugal, onde se construiu um eficaz apoio parlamentar da esquerda radical ao governo socialdemocrata português, baseado em um controle regular da gestão política. Na Europa do norte há coalizões de todo tipo de forma entre as direitas, grandes coalizões entre direita e esquerda, ou entre esquerda e verdes, atores crescentemente importantes. Só na Grécia, a peculiar e antidemocrática lei grega permite maiorias absolutas. Mas não na Espanha. Já não pode haver governos solitários sem apoio algum. Investidura e orçamentos requerem alianças.
E então? Qualquer nova eleição não mudará o bloqueio atual, ainda que os números se modifiquem levemente. De modo que, para formar um governo, terá que ser ou uma coalizão de esquerda, com abstenção independentista para os orçamentos, ou uma grande coalizão entre o PSOE e a direita. Algo que poderiam aceitar o PP e um diminuído Cidadãos que luta para sobreviver. Uma situação paradoxal para um Pedro Sanchez que ressuscitou mediante sua oposição à grande coalizão (“com Rivera não, diziam seus seguidores”).
Não vou entrar no mérito de quem é a culpa pela não formação de uma coalizão ou cooperação entre a esquerda. Porque, como nos divórcios, os dois lados são responsáveis. Pareciam preocupados mais com a imagem midiática do que com o acordo propriamente dito. O que constato é o monumental enfado cidadão, sobretudo entre os jovens, em relação a todos os partidos. Abstenção massiva. E as sentenças do Supremo em outubro: independentismo na Catalunha, o caso dos EREs [1] na Andaluzia. Ainda assim o PSOE, que só calcula em porcentagens, pretende ter 140 cadeiras. Ainda faltariam 36. Tempo de coalizões. Não as que deseja, mas as que são possíveis. E aqui vem o mais perigoso: a cínica proposta de mudar as regras do jogo para limitar a intervenção no sistema político daqueles que não se dobram aos partidos tradicionais. É perigoso porque as demandas sociais são como a água: se encontram um bloqueio transbordam por canais imprevistos.
[1] Expedientes de Regulação de Emprego. Está em julgamento a suposta criação, por parte de altos funcionários do governo andaluz, de um “procedimento específico” para burlar os controles de fiscalização prévios da intervenção geral do governo na concessão de ajudas sociolaborais a empresas em crise entre os anos de 2000 e 2011.
(*) Doutor em sociologia pela Universidade de Paris, é professor nas áreas de sociologia, comunicação e planejamento urbano e regional e pesquisador dos efeitos da informação sobre a economia, a cultura e a sociedade. Artigo publicado originalmente em La Vanguardia.
TraduçãoMarco Weissheimer

Momento poético

Aceitarás o amor como eu o encaro?… Aceitarás o amor como eu o encaro ?… … Azul bem leve, um nimbo, suavemente Guarda-te a ima...