terça-feira, 10 de julho de 2018

Entre o Herval que sonhamos e o Herval que podemos ter




Todos nós queremos um Herval pujante e na vanguarda do desenvolvimento, o que se precisa ponderar é que o perfil e a localização do nosso município que nos proporcionam um patrimônio inestimável, sobretudo, no que tange às riquezas naturais, em termos do desenvolvimento econômico se configuram num entrave ou mesmo obstáculo de difícil superação. Portanto, tal cenário ou configuração constitui-se no nosso chão e horizonte, condicionando não apenas o poder público, mas os empreendimentos ou negócios privados aqui desenvolvidos.

Convém lembrar que estamos situados na faixa de fronteira com os “hermanos” Uruguaios, sendo que Herval não está conectado ao país vizinho por meio de uma cidade gêmea (como Jaguarão e Aceguá, por exemplo), condição que despontencializa a geração de riquezas baseada na integração fronteiriça. Bom recordar também que não possuímos ligação asfáltica com os municípios da fronteira oeste gaúcha, obra que poderia tirar Herval da posição de fim de linha, criando um corredor alternativo para acesso ao Porto de Rio Grande.

Além disso, em termos climáticos, nosso município é considerado um deserto verde, na medida em que costuma ser atingido frequentemente pela escassez de chuvas no verão e por constantes enxurradas no inverno. Dados oficiais indicam que a cada sete anos, em cinco sofremos com os efeitos da estiagem. Diante desse cenário, o município que possui pouca ou nenhuma industrialização (setor produtivo que costuma agregar maior valor à produção), tem sua principal vocação e matriz produtiva constantemente afetada pelos efeitos cruéis de fenômenos climáticos adversos. Situação que impõe repetidas perdas e prejuízos aos produtores e à economia local como um todo, além de desestimular investimentos mais “agressivos” nesse setor.

Ademais, como venho martelando insistentemente, Herval é totalmente dependente das receitas provenientes do Fundo de Participação dos Municípios e do ICMS, bem como dos recursos vinculados e convênios firmados com os governos da União e do estado. Frente a esse quadro, é inevitável que nosso município sofra um grande abalo ou mesmo não consiga deslanchar quando o Brasil e o Rio Grande do Sul não vão bem ou andam mal das pernas.

Para piorar, ainda existem alguns limites impostos à realização de investimentos públicos no município e aqui cito dois deles: a Portaria Interministerial nº 507/2011, que impede o aporte de contrapartida física (bens e serviços) em obras de infraestrutura executadas com recursos federais. Só para que o leitor e a leitora tenham uma ideia concreta não somente da morosidade gerada, mas do efeito antieconômico dessa normativa no âmbito local, digo que ela obriga a prefeitura a contratar empresa responsável pela execução das obras públicas, não podendo utilizar nas mesmas a mão-de-obra composta pelos servidores municipais. Outro obstáculo nesse sentido, já mencionado anteriormente, é a localização desprivilegiada do município que acaba impactando e elevando os custos relacionados à logística desses empreendimentos.

Alguém poderá dizer que, não obstante ao que exponho, Herval viveu um boom positivo recentemente... Sim, experimentamos uma verdadeira explosão de desenvolvimento no setor público hervalense, decorrente de uma gestão que “arrumou a casa” em sentido administrativo e montou uma estratégia correta e certeira, porém tal boom não foi produzido localmente nem mantido pela força do poder local. O que se fez foi acertado e digno de todos os aplausos, mas precisa ser visto e reconhecido como fruto da política virtuosa instituída pelos governos petistas no plano federal, o qual introduziu uma lógica e um modelo de desenvolvimento que tirou Herval e quase todos pequenos municípios da margem e colocou dentro da roda de progresso que vinha girando por todos os cantos do país.

Encerro dizendo que a administração local está fazendo sua parte e dando conta da lição de casa. Exemplo disso é que os salários dos servidores seguem sendo pagos rigorosamente em dia e a prefeitura continua livre do fantasma do CADIN que tanto assombrou os hervalenses e impediu a chegada de milhões em investimentos do então governo Lula, durante o período que o principal partido da oposição esteve no comando do município. O fato é que vivemos dias ruins, com os governos federal e estadual inoperantes ou alheios perante as principais demandas e desafios da Sentinela da Fronteira, fazendo com que nossos limites, mazelas e fraquezas fiquem mais visíveis e a realização do essencial se torne um grande feito.

Esse, portanto, é o chão que temos para pisar e o clima enfrentado no momento, porém mesmo com a diminuição do ritmo, a marcha da gestão local continua e as velas vem sendo ajustadas para que se possa acelerar quando ventos mais favoráveis voltarem a soprar na direção da nossa terra, do ambiente dos negócios e da vida de todos nós em sentido coletivo.  

quarta-feira, 4 de julho de 2018

Momento poético



O quarto em desordem


Na curva perigosa dos cinquenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar


a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem 
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,


verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear o peito de quem ama.



terça-feira, 3 de julho de 2018

Autorretrato


Me gusta o vermelho do mar vermelho e o vermelho da minha pele encabulada diante da tua lindeza e o vermelho das rosas rubras que tentam exalar teu aroma e muito mais o vermelho do amor que guardo para te dar de presente de aniversário.

Música para os meus ouvidos


O amor não é um mantra, mas sempre merece ser cantado com o vigor e a calma calorosa dos Vercillos da vida.


segunda-feira, 2 de julho de 2018

Ato político



Juremir Machado da Silva certeiro como sempre. Amparado em outro gênio para desfilar sua genialidade e escorado no futebol para marcar mais um golaço quando aborda a política.

Sem dúvidas, Neymar virou alvo de críticas não por conta do seu desempenho em campo, mas por suas escolhas políticas fora dele e também porque é um rico ignóbil e esnobe diante de uma multidão de miseráveis que matam um leão por dia para serem premiados apenas com o básico e olha lá.

O fato é que um golpe político-midiático é algo muito mais duro e sério que um 7x1 numa partida de futebol. Especialmente quando esse golpe atinge não apenas quem joga o jogo da política, mas justamente essa multidão de famintos (não só de comida) que tinham no projeto político golpeado um fio de esperança e a porta aberta para vencer na vida não apenas pelo caminho do futebol.

Como esperar resignação e o aplauso quando um herói dos golpistas se mostra como uma espécie de vilão ou é mostrado como modelo de sucesso que os golpeados nunca alcançarão?

Ou como disse Umberto Eco, para ser tolerante, é preciso fixar os limites do intolerável.

Vai lá Brasil de Tite e Felipe Coutinho! O Brasil de Neymar e da Globo ainda que seja campeão não passará e não produzirá nada de bom na vida do povo brasileiro fora das quatro linhas! 






Umberto Eco e as Copas 


Umberto Eco foi grande. Falava de tudo. Mas não gostava de futebol. Ele não era o intelectual indiferente à cultura de massa. Ao contrário, consumia de tudo, de histórias em quadrinhos a romances policiais. O futebol, porém, era-lhe estranho. Em 1969 e em 1978, durante a Copa da Mundo da Argentina, ele se meteu no assunto. Na primeira incursão, produziu um texto intitulado “A falação esportiva”. Nele, o futuro best-seller com “O nome da rosa” dizia que nenhum movimento estudantil ou outro seria capaz de invadir um estádio de futebol num domingo. A execração seria total. Não haveria apoio algum.
O semiólogo compreendeu a grande revolução: o futebol como esporte não mais para ser praticado, mas para ser visto. Mais do que isso, para ser objeto de falação: “Se o esporte é praticado para a saúde, como comer comida, o esporte visto é a mistificação da saúde. Quando vejo os outros jogarem, não estou fazendo nada de saudável, e apenas vagamente desfruto a sanidade alheia (o que já seria mero exercício de voyeurismo, como quem olha os outros fazendo amor). Para o teórico da “obra a aberta”, o futebol tornara-se “um discurso sobre a imprensa esportiva” ou um discurso da imprensa esportiva. O seu objetivo não era o gol, mas fazer falar do jogo e do gol. Daí a importância da polêmica. O VAR parece ser a nova etapa da falação.
Na falação, segundo Eco, “neutralizam-se as energias intelectuais”. Todo mundo é expert e todo mundo pode neutralizar o outro como despreparado. A frase mais comum da falação esportiva é “você não entende nada”, que significa “como se atreve a pensar diferente de mim”. Na falação, algo fala através de nós: aquilo que somos. Umberto Eco tocou no ponto mais sensível: fala-se para fazer contato, estar em contato, participar de algo. O problema é que essa lógica tribal empurra cada vez mais para a divisão. Uma tribo não quer mais falar com a outra. Falar por falar para fazer o tempo passar.
Em “O mundial e suas pompas”, Umberto Eco explica o seu desinteresse pelo futebol: nasceu ruim de bola. Mas isso não queria dizer que execrasse a paixão pelo futebol. Considerava-a providencial para canalizar as energias reprimidas das massas: “Sou favorável à paixão pelo futebol como sou favorável aos rachas, às competições de motoqueiros à beira do abismo, ao paraquedismo desvairado, ao alpinismo místico, à travessia dos oceanos em barcos de borracha, à roleta russa e ao uso da droga”. Era possível escrever assim. Eco nunca foi politicamente correto. Podia ironizar a cadeia esportiva.
Falar de esporte, segundo ele, naquele momento era uma maneira de não falar de política. Hoje, no Brasil, parte da crítica feita a Neymar é uma falação política contra a Rede Globo, de quem ele seria protegido, apontada como responsável pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. É só ler os textos dos gurus midiáticos de esquerda para ter a prova. Em tempos de terrorismo e de Brigadas Vermelhas, Eco especulava: “Existe a possibilidade da luta armada no domingo de campeonato? Talvez fosse preciso fazer menos discussões políticas e mais sociologia circense”. Preconceito de intelectual? Pura falação?
Para o italiano Umberto Eco esporte era uma atividade sem fins lucrativos na qual cada um empenhava diretamente o seu corpo. A Copa do Mundo faz parte do espetáculo esportivo. Nele, os jogadores “são profissionais submetidos a tensões não diferentes das de um operário da linha de montagem (afora algumas insignificantes diferenças salariais)”. Atenção, ironia! Já os espectadores se portariam “como fileiras de sexomaníacos que vão regularmente espreitar (não uma vez na vida em Amsterdã, mas todos os domingos, e em lugar de fazer) casais que fazem o amor ou que fingem fazê-lo (ou como as crianças paupérrimas de minha infância a quem se prometia levar para ver os ricos tomarem sorvete”. O futebol seria a política por outros meios.
É claro que Umberto Eco nada entendia de futebol. Talvez por isso tenha tocado no ponto mais importante a ser considerado: o futebol é uma falação interminável. O que se diz por meio do comentário do jogo? Tudo. Nas críticas a Neymar, por exemplo, transparecem visões de mundo que vão da exigência do homem que não pode chorar a um comportamento ilibado que mesmos os críticos dificilmente praticam, passando por uma exploração política escancarada que o transforma em objeto de um ressentimento incontido. Por trás da falação esportiva reverbera uma falação moral, política, psicológica, ideológica. Se luto a cada dia por muito pouco, como posso tolerar que aquele que ganha muito caia em campo e reclame?
Até que ponto Umberto Eco tinha razão? Até que ponto suas intuições se confirmaram? A falação agora tem um amplificador: as redes sociais. Nelas, contudo, não se fala para ativar a chamada função fática, o contato, mas para entrar em guerra com esse outro que diverge. A diferença decepciona. Para o jornalismo a decepção provocada é um selo de qualidade. Ela se chama independência. Umberto Eco deitou falação sobre o futebol. Foi um ato político explícito. Falava por falar. Como todo mundo. A essência do futebol é o que se diz sobre ele.

Música para os meus ouvidos

Que tal um som capaz de embalar nossa semana inteira ou tirar os anjos para dançar?