sexta-feira, 15 de junho de 2018

Autorretrato


E daí que faz frio? Tenho o fogo do afeto e o calor da minha alma faiscante.

Momento poético



Ainda não
I
Ainda não…
É a espera.
Afirmação
do tempo que vai chegar
no tempo que está passando.
II
Ainda não…
É a promessa.
Certeza
do tempo de querer
no tempo que vai chegando.
A mulher é a terra —
terra de semear.
III
Ainda não…
O tempo disse dormindo:
Por que esperar?
Plantar, colher
no amanhecer.
Não retardar o instante
maravilhoso da colheita.
IV
Veio o semeador,
semearam juntos
e colheram
o encantamento do fruto.
Lamentaram juntos
Retardamos tanto… no tempo.

Cora Coralina

Cenas da vida inventada





quinta-feira, 14 de junho de 2018

Pitada filosófica



Ato político



O passado deveria ser uma roupa que não nos serve mais. Deveria, pois na política Brasil e Argentina são campeões em repetir erros do passado não muito distante, caindo na cilada ultraliberal que já deveria estar morta e enterrada.

 

Por mais que a propaganda bancada pelo poder econômico mundial venda o paraíso, na prática o paradigma neoliberal provou ser o grande câncer a corroer países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como é o caso da América Latina.

 

Assim, a promessa de que, em adotada a agenda neoliberal, se alcançaria o céu na terra; na vida real nunca passou de conto de fadas. E qual é essa tal agenda? A redução ao máximo o tamanho do Estado; promoção de ajustes fiscais escorchantes a custa do sacrifício da população com menor poder aquisitivo; corte de serviços públicos e políticas públicas promotoras de inclusão social e desenvolvimento econômico; venda de empresas públicas lucrativas; apoio governamental para o investimento especulativo no lugar de apostar no capital produtivo; falta de apoio à produção com conteúdo nacional, “exportando” empregos para outros países; isenções fiscais bilionárias para empresas multinacionais sem exigir o mínimo retorno para o conjunto da sociedade; corte de investimentos em pesquisa, inovação, ciência e tecnologia; enfraquecimento ou retirada do Estado de setores estratégicos (energia, água, combustíveis), dificultando ou impossibilitando a regulação dos preços desses serviços, etc., etc. e etc.

 

Enfim, como diz o grande Olívio Dutra, um estado mínimo para a maioria e máximo para meia dúzia de muito ricos.

 

Esperemos que o povo acorde e deixe de buscar soluções em pessoas, slogans, “dancinhas” ou palavras de ordem e preste mais atenção nos projetos políticos em disputa. Só assim, haveremos que trilhar o bom caminho e não aceitar nenhum retrocesso.

 

Brasil e Argentina repetem o modelo dos anos 90 e fracassam de novo



A direita latino-americana fez tudo o que pôde, falsificou a realidade, apelou para a fraude jurídica, para o marketing eleitoral para interromper os governos que punham em prática políticas antineoliberais. Não tinha projeto de país. Seu objetivo era prestar mais um serviço às oligarquias dominantes, interrompendo governos que governavam para todos, promoviam a integração social, fortaleciam o Estado e adotavam políticas externas de soberania nacional.

Na Argentina a direita conseguiu voltar ao poder por meio de eleições, no Brasil por meio de um golpe. Mas rápido essa diferença se revelou secundária. Colocam em prática, de novo, políticas neoliberais, muito similares entre si, como havia ocorrido nos anos 1990. E fracassam novamente, de maneira muito similar.

O retorno da direita na Argentina parecia apresentar as melhores condições para o projeto de restauração neoliberal. Um candidato que havia sido presidente do Boca Juniors numa fase sumamente vitoriosa do seu time de futebol. Depois foi prefeito de sucesso na cidade de Buenos Aires por dois mandatos, tendo eleito seu sucessor. Uma imagem jovem, de executivo de sucesso, com um marqueteiro competente, conseguiu derrotar o candidato de Cristina para presidente da Argentina e para governador da província de Buenos Aires, concentração histórica da classe operária peronista. Com o prefeito de Buenos Aires e os governadores das duas principais províncias do interior, conseguiu que seu partido chegasse aos postos chave do sistema político argentino.

Mesmo sem maioria no Parlamento, joga com os recursos do governo federal às províncias e com divisões dentro do peronismo para conseguir aprovar boa parte dos projetos que manda ao Congresso. Cronistas apressados – inclusive entre os que se julgam progressistas – se precipitaram a prever que o macrismo vinha para ficar como o grande partido da direita argentina, que Macri seria favorito para reeleger-se em 2019 e que a derrota eleitoral da esquerda seria de longo prazo.
“O Plano A está funcionando. Mudanças graduais, mas profundas. A economia cresce por segundo ano seguido, cria emprego, diminui a pobreza e tudo acontece liderado pelo investimento e enquanto corrigimos desequilíbrios. Vamos chegar a 2019 crescendo três anos seguidos, e no momento das eleições, crescendo a mais de 5%.” Mensagem escrita por um alto funcionário do Ministério da Fazenda argentino dia 22 de abril a um jornalista do Le Monde Diplomatique daquele pais, que comenta; “Duas semanas depois, a terra tremia e Macri anunciava que volvíamos ao FMI. Algo tinha falhado: o Plano A tinha se esgotado e não havia plano B.”

Havia sinais de que as coisas tinham mudado na Argentina. Macri conseguiu aprovar a reforma da previdência mas, devido à forte resistência do movimento sindical, não a reforma laboral. Manifestações de rua foram violentamente reprimidas e o apoio a Macri foi descendo. Até que veio a crise atual, possível porque o governo não conseguiu conter a subida do dólar, mesmo gastando 10 bilhões de dólares para tentar estabilizar o câmbio. Os argentinos não acreditam mais nos bancos desde a crise de 2001/2002, quando se sentiram traídos por eles, ao mudar a paridade da moeda argentina de 1 a 1, para 4 a 1, se sentiram lesionados e passaram a poupar em dólares. Dai que diante de qualquer incerteza econômica, correm a comprar dólares e se acelera a disputa pelo valor da moeda norteamericana.

Até que Macri anunciou que o país iria buscar recursos com o FMI, com todas as consequências correspondentes. Obteve 50 bilhões e a carta de intenções, com as maldades correspondentes, começa a ser revelada aos poucos. Do FMI já anunciam que: O povo vai ter que sofrer. Não se sabe de onde mais vão cortar, já que nestes dois anos já se colocou em prática um duríssimo ajuste fiscal, com desemprego, recessão e empobrecimento generalizado, ao lado da fuga de capitais, do aumento da divida pública e do aumento da inflação, que chega a 27% este ano, apesar de todos os cortes de recursos públicos.

O clima econômico mudou rapidamente, com o conhecido sentimento que vai da euforia à maior depressão, o prestigio de Macri se aproxima ao de Temer, se questiona fortemente se poderá se reeleger em 2019 ou até mesmo se vai concorrer. Mesmo sua filiada preferida, Maria Eugenia Vidal, jovem governadora da província de Buenos Aires e eventual candidata alternativa, sofre as consequências desse desgaste. 

Em suma, nas melhores condições da restauração neoliberal, o projeto argentino fracassa estrepitosamente, ao retomar, pura e simplesmente, o modelo neoliberal dos anos 1990, centrado no ajuste fiscal.

Para confirmar que a direita latinoamericana não tem nada a propor senão o ajuste neoliberal, no Brasil também se retomou o projeto fracassado nos anos 1990, como se não  houvesse passado nada desde então, nem seu fracasso, nem o sucesso dos governos que priorizaram o crescimento econômico com distribuição de renda. E, apesar do clima artificialmente criado de que estaria havendo uma recuperação econômica, ela não resistiu às greves dos caminhoneiros e dos petroleiros e volta a se instalar, generalizadamente, o clima pessimista, com índices de suposto crescimento se aproximando de zero.

Brasil e Argentina retomaram o modelo neoliberal dos anos 1990 e fracassam de novo. Fica reaberto o caminho para que governos progressistas retomem o caminho do modelo alternativo, antineoliberal, de crescimento econômico com políticas sociais, de resgate do papel ativo do Estado e de políticas externas de integração regional e intercambio Sul-Sul. O espasmo neoliberal durou pouco.


Por Emir Sader


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quinta-feira, 7 de junho de 2018

Licença poética



Peço licença uma vez mais para entregar-lhes novas palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...


Ao norte de mim eu noto a sorte que alcançarei na velhice.
Ao sul enxergo um oceano doce, sapeca e de pernas para o ar.
Ao leste vejo uma sereia invadindo minhas veias, sem as vestes.
Ao oeste vislumbro o céu de mãos dadas com um cão sarnento.

Música para os meus ouvidos


Lenine brinda-nos com o som capaz de acender o coração e esquentar o corpo no frio dessa estação.




quarta-feira, 6 de junho de 2018

Rir é o melhor remédio



Ato político



Leitura mais que obrigatória nesses tempos de estupidez galopante, indicação de caminhos que nos levam cada vez mais ao passado e invocação de heróis que nunca passaram de vilões...




A ditadura corrupta

 

O sabido está cada vez mais documentado. Era certo que quando os documentos sigilosos dos Estados Unidos sobre a ditadura brasileira viessem à tona o regime dos militares ficaria nu em praça pública. Todo pesquisador sabe que a corrupção correu solta durante os 25 anos da “democracia” fardada com suas eleições presidenciais de mentirinha e suas manipulações de verdade para garantir os interesses de poucos e o silêncio de muitos. Agora que os americanos estão liberando a papelada todo dia tem novidades sobre tortura, execuções de inimigos políticos e roubalheira. A imagem do ditador Ernesto Geisel já era. Até Rede Globo, cria do regime, já trata Geisel com a devida verdade.
Um telegrama secreto de 1984, com quatro páginas, remetido pelos espiões estadunidenses, disfarçados de burocratas, a Washington revela a corrupção nos tempos de João Figueiredo, aquele general que preferia cheiro de cavalo ao de gente, e enfia o todo-poderoso Delfim Neto na lama. O documento fala em “jeitinho” brasileiro. Jeitinho de quê? De roubar. Delfim Neto é citado como coletor de propina na condição de embaixador em Paris. O texto expunha as entranhas da brasilidade de coturno: “Entre muitos oficiais, dos mais baixos aos mais altos, há uma forte crença que os últimos 20 anos no poder corromperam os militares, especialmente o alto comando e que agora é hora de deixar a política e suas intempéries e voltar a ser soldado”. Precisa mais? A ditadura é uma chaga que só os simplórios defendem.
Se precisar, tem. O documento avalia: “O que está claro é que a corrupção, real ou imaginária, está erodindo a confiança dos brasileiros em seu governo”. São 694 informes capazes de acabar com todas as ilusões sobre um tempo de tranquilidade, segurança e honestidade. A censura impedia que os casos mais escabrosos fossem noticiados. Havia nepotismo, propina e favorecimento ilícito a amigos da casa. O historiador Carlos Fico já havia tratado disso com solidez em “Como eles agiam”. Nada, porém, como uma enxurrada de dados liberada pelos aliados de golpe para afogar narrativas ingênua ou maliciosas. Na ditadura, roubou-se como sempre e enganou-se como nunca. Delfim Neto foi acusado de praticar um esporte nacional: intermediar negócios entre banco privados e estatais brasileiras.
Ela arranjou uma boa desculpa: conversa de malandros americanos para encher relatórios e enganar os chefes nos Estados Unidos. O pessoal ficaria de papo para o ar ao sol de Copacabana e contaria lorotas para mostrar serviço. A operação para abafar a corrupção aconteceu também nos governos dos ditadores gaúchos Médici e Geisel. Documentos vindos da Inglaterra entregam o jogo. Os britânicos queriam ajudar o Brasil a pegar gatunos. A ditadura optou pela “discrição”. Era o caso de superfaturamento numa compra de fragatas. Os mitos sempre morrem. Eles enfrentam um roedor implacável chamado História. Nada fica em pé. Salvo a vontade de alguns de conservar as mentiras. Ter vivido na época de um acontecimento não quer dizer muito. Pode-se viver e não saber por ignorância, ideologia ou desinteresse. Historiadores não sabem por ter vivido, mas por ter pesquisado. Beneficiam-se do distanciamento para ver melhor.
Vem mais por aí. Na conta de Ernesto Geisel já está debitado: mandou matar e abafar casos de corrupção. Eis a ditadura estraçalhada. Não a ditadura corrompida. Ditadura corrupta.

Por Juremir Machado da Silva

Autorretrato

E daí que faz frio? Tenho o fogo do afeto e o calor da minha alma faiscante.