O Blog busca retratar coisas da vida interiorana e do meu interior, numa abordagem que mistura reflexão, notícias, riso, poesia, musicalidade, transcedentalidade e outras cositas más. Tudo feito com produções próprias, mas também com a reprodução do pensar ou do sentir dos grandes gênios que o país e a humanidade pariram.

terça-feira, 25 de abril de 2017

Ato político


Eis um escrito que fala por si mesmo e profundamente, dispensando legendas, filtros ou comentários preliminares.

Diante dele, digo apenas: vamos acordar para a vida real antes que sejamos engolidos definitivamente por essa onda de atraso que tomou conta do Brasil e da maioria dos brasileiros, inclusive aqueles atingidos por essa ideologia maléfica que chama todos, mas escolhe tão poucos. Que estende tapetes vermelhos para os grandes (ou donos) do mundo e passa rasteiras homéricas nessa gente bronzeada que mostrou seu valor com Lula e Dilma.


A essência da oligarquia e os impasses dos governos de coalizão,

por Jeferson Miola


Este texto é constituído de duas partes. A primeira, apresentada a seguir na sequência de 10 tópicos, pretende abordar a essência da oligarquia brasileira; sua natureza autoritária, rentista e patrimonialista e, em consequência disso, sua incapacidade de dirigir a construção de uma nação democrática, soberana e igualitária.

Na segunda parte, se busca avaliar os limites e impasses experimentados pelo espectro progressista e de esquerda para modernizar e democratizar o Brasil quando seus governos são garroteados no marco de coalizões governamentais sem identidade programática e sem convergência estratégica acerca de um projeto de desenvolvimento do país.
Parte I – a essência da oligarquia brasileira
1.
A economista Maria da Conceição Tavares, em Celso Furtado e o Brasil [Editora Fundação Perseu Abramo, 2000], o brilhante artigo Subdesenvolvimento, dominação e luta de classes. Este escrito preserva, ainda hoje, notável pertinência para a discussão sobre a estratégia de transformação do Brasil desde a perspectiva dos subalternos.
Em distintas passagens do seu texto, Maria da Conceição ilumina o olhar sobre a natureza da oligarquia política e os seus limites para completar a revolução burguesa:
“No ensaio Brasil: da República oligárquica ao Estado militar, Furtado afirma logo no início que ‘a miséria de grande parte da população não encontra outra explicação que a resistência das classes dominantes a toda mudança capaz de pôr em risco seus privilégios’”.
Em consonância com a percepção de Furtado, Conceição complementa:
“… podemos enunciar o problema afirmando que a nossa peculiar ‘revolução burguesa’, começada há pelo menos 150 anos, em vez de permitir a passagem a uma ‘ordem competitiva’, manteve um pacto de dominação social férreo entre os donos da terra, o Estado e os donos do dinheiro, que se caracterizou, do ponto de vista político, por uma oscilação permanente entre uma ordem liberal oligárquica e um Estado interventor autoritário”.
2.
A oligarquia, na sua essência, além de autoritária, é golpista; para ela, a democracia é um valor meramente circunstancial. A história do Brasil testemunha a índole conspirativa da classe dominante, que subverte a ordem jurídica e golpeia o Estado de Direito sempre que considera seus privilégios de classe ameaçados por políticas distributivas e desconcentradoras de renda.
Esta oligarquia é um obstáculo concreto a qualquer estratégia de construção de uma nação igualitária, moderna, democrática e integrada com altivez no mundo.
3.
A oligarquia sempre agiu para obstruir as trajetórias de modernização e democratização do país:
[1] em 1954, fabricou o clima beligerante e a crise política que levou Getúlio ao suicídio;
[2] em 1955 e em 1961, tentou impedir as posses de Juscelino Kubitschek e de João Goulart;
[3] nos anos 1962 a 1964, sabotou a economia e conspirou contra o Presidente Jango com a assistência explícita do governo dos EUA sob o comando implícito de John Kennedy. Em 1º de abril de 1964, desfechou o golpe civil-militar que depôs Jango e interrompeu as reformas de base e o processo de inserção soberana e independente do Brasil no mundo;
[4] em 2002, condicionou a garantia da normalidade política, eleitoral e institucional ao aceno, por parte do Lula, da “carta ao povo brasileiro”, elaborada para “tranqüilizar” os mercados;
[5] em 2014, não aceitou a derrota eleitoral e tentou impedir que Dilma assumisse. Primeiro, pediu a recontagem dos votos; e, fracassado o intento, requereu a cassação da candidatura Dilma no TSE; e
[6] de 2014 a 2016, infernizou o país, fez terrorismo político e induziu à brutal crise econômica para legitimar o golpe jurídico-midiático-parlamentar perpetrado em 31 de agosto de 2016 através do impeachment fraudulento da Presidente Dilma. Um golpe de novo tipo, sem baionetas, tanques e generais, mas, assim mesmo, um golpe continuado [e ainda em andamento], de impressionante violência contra os interesses nacionais e populares e a política externa altiva e ativa do Brasil.
4.
Em todas estas circunstâncias históricas, a denúncia hipócrita da corrupção foi o tempero da propaganda ideológica que coesionou as classes médias e altas contra governos progressistas. A mídia e a influência estrangeira foram, também, fatores decisivos para o sucesso das empreitadas golpistas.
Em 1964, mais que influência, houve clara ingerência norte-americana nos assuntos internos do país. Em 2016, observa-se o ativismo secreto da CIA e dos Departamentos de Estado e de Justiça dos EUA em cooperação com o MP e a força-tarefa da Operação Lava Jato.
Nos dois golpes, a Rede Globo desempenhou o papel central de alienação, manipulação e legitimação das dinâmicas golpistas.
5.
A oligarquia brasileira tem um ethos societário egoísta e excludente. Para ela, o Brasil jamais será uma nação para os 203 milhões de brasileiros porque deverá ser, por toda a eternidade, sua capitania hereditária. Essa possessão marca sua genética: o Brasil foi o último país a abolir a escravatura e o único, dentre as maiores economias do planeta, a não completar a reforma agrária capitalista.
A dominação oligárquica fez do Brasil um dos países mais desiguais do mundo com o aviltamento dos salários, a exclusão brutal do povo trabalhador e o desemprego estrutural. Com a terceirização geral e irrestrita dos contratos de trabalho, as classes dominantes sacramentaram o pacto de dominação escravocrata que fará o país retroceder às características da exploração oligárquica do século 19.
6.
A oligarquia estabelece com o Estado uma relação patrimonialista e de pilhagem permanente de várias maneiras: com benefícios e favores fiscais e tributários; na sonegação consentida e tolerada; através da corrupção direta [licitações] e indireta [privatizações]; e, principalmente, na acumulação preguiçosa com os juros mais pornográficos do planeta.
É, enfim, uma classe parasitária do rentismo e do ganho fácil na orgia financeira. É uma burguesia que financeirizou seu negócios em patamares elevados, onde a produção para o mercado interno é mero efeito secundário da prioridade de ganhos financeiros fáceis.
Para Maria da Conceição,
“as relações de dominação e cumplicidade entre os agentes do dinheiro mundial e as burocracias do dinheiro nacional foram a moldura estrutural que enquadrou a formação de nossas elites ‘cosmopolitas’ e o caráter mais ou menos dependente – ou associado – de nossa burguesia com o capitalismo financeiro internacional. Estas relações financeiras desiguais terminam em geral num processo de endividamento externo do Estado, que conduz periodicamente ao estrangulamento das finanças públicas e alimenta os conflitos do governo central com as elites locais por tornar escassos os ‘fundos públicos’”.
7.
A fração industrial da oligarquia, sobretudo o núcleo paulista hegemônico, defende políticas que, teoricamente, seriam contraditórias com seus interesses, como os juros altos e a valorização do real.
Isso representa a renúncia a um projeto de desenvolvimento nacional autônomo, com soberania científica e tecnológica para a geração de inteligência e empregos aqui no país, e não nas matrizes das companhias norte-americanas, européias, japonesas ou chinesas.
Esta perspectiva interdita a inserção favorável do país nas cadeias globais de valor e na disputa competitiva dos mercados mundiais de bens, obras e serviços. A destruição da cadeia de gás e petróleo e da engenharia nacional pela Lava Jato, bem como a entrega do pré-sal, o abandono da política de conteúdo local e o ataque à cadeia de produção animal, estão embalados neste invólucro ideológico.
8.
A oligarquia brasileira sempre se reconheceu subalternizada e colonizada pelas metrópoles imperiais, sobretudo pelos EUA. Aliás, faz disso seu glamour.
Não por acaso, em 18/4/2016, o dia seguinte à “assembléia geral de bandidos comandada por um bandido chamado Eduardo Cunha”, que aprovou o impeachment fraudulento da Presidente Dilma, o hoje chanceler Aloysio Nunes Ferreira [PSDB/SP] voou aos EUA para prestar contas ao Departamento de Estado sobre o processo do golpe.
É, como se vê, uma oligarquia que despreza os conceitos de nação, povo, soberania, cultura e desenvolvimento nacional. O mantra que embala os sonhos desta burguesia é: “se é bom para os EUA, é bom para o Brasil”.
9.
A oligarquia brasileira, que na sua essência é autoritária e golpista, tem traços fascistas. Os fascistas estigmatizam grupos sociais para infundir sentimentos coletivos de ódio contra os grupos por eles mesmos estigmatizados – em regra, os eleitos como inimigos. Hitler foi o precursor deste método na Alemanha dos anos 1920/1930, inclusive mandando afixar estrelas de David nas casas de famílias de judeus, para facilitar a caçada dos “inimigos”.
Os fascistas instrumentalizam as instituições do Estado como a PF, o MP e o judiciário para aniquilar adversários políticos e ideológicos – Lula, o PT e as esquerdas – para, com isso, eliminar a oposição e a resistência democrática aos atentados que perpetra contra o Estado de Direito e a democracia.
10.
A oligarquia é um entrave à modernização e à democratização do Brasil. Qualquer mudança do país, mesmo no marco de um projeto social-democrata e de bem-estar-social, encontrará nesta oligarquia uma ferrenha resistência.
Um projeto democrático-popular de transformação do Brasil, capaz de assegurar a dignidade dos subalternos, não tem viabilidade no marco de um governo de coalizão com a oligarquia associada ao capital financeiro internacional e que condena o país ao atraso estrutural.
Para Maria da Conceição Tavares, “… a reconstrução de um Estado democrático e republicano é provavelmente apenas uma aspiração consciente dos cidadãos, isto é, dos incluídos”. A partir desta afirmação, ela pergunta: “Mas, e os excluídos da cidadania, como chegarão a ela sem a luta de classes?”.
A derrota da oligarquia golpista é o pressuposto fundamental para que o país consiga se libertar da corrente que o prende ao passado arcaico de exclusão social e dependência das metrópoles estrangeiras.
É preferível perder eleições e acumular forças, a vencer e sofrer uma derrota estratégica por executar um programa oposto ao necessário para construir a nação brasileira moderna, democrática e igualitária.
Não é suficiente ganhar uma eleição, é necessário alterar a correlação de forças na luta de classes e criar condições para poder mudar o Brasil para melhor.

Altas conexões



segunda-feira, 24 de abril de 2017

Momento poético



A página branca e a migalha - poema 10
(Maria Carpi) 
 

A página branca é a única 
que sabe qual o dia da própria


morte. A sede da água no recesso 
da pedra. A sede da água não


capturável e o talo da sede, 
ao último gole por todos os poros.


Ó página, ó rumor, lembra-te 
de mim, em minha miséria,


quando alçares o chão além 
da exigüidade. Não te esqueças


em teu esplendor, do fluxo arterial 
que move os rascunhos ao falcão


imprevisível sobre a presa. 
Eu te louvo e te bendigo, fome


imemorial, porque terei pouca 
coisa a devolver aos vermes!

(A Migalha e a Fome)

Nem só de pão viverá o homem




quinta-feira, 20 de abril de 2017

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Música para os meus ouvidos


Queria saber cantar. E não teria a pretensão de ser um grande cantor. Contentaria-me em chegar no calcanhar de Adriana Calcanhoto...



terça-feira, 18 de abril de 2017

Licença poética



Peço licença uma vez mais para entregar-lhes novas palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...


Te encontro na rua, na esquina, na quina da lua, no banco da praça, em qualquer canto, na imensidão do verso, no infinito do universo, no mar da minha imaginação.


A gente se encontra e me cobres de encanto.

Ato político


Para quem ainda não captou o que está acontecendo no país em termos políticos e econômicos, eis um escrito esclarecer e certeiro da deputada estadual Stela Farias.
Para mim, a cada dia fica mais claro e cristalino que o PT virou a “Geni” da nação – que até os safados de carteirinha se acham no direito de jogar-lhe pedras –, não por causa dos seus erros, mas especialmente pelos acertos que colocaram os pobres no orçamento público, estabeleceram um projeto claro e exitoso de desenvolvimento nos quatro cantos do Brasil e levaram nosso país a ocupar posição de destaque no cenário geopolítico mundial.
Havia a corrupção nos governos do PT (praticada muito mais pelos corruptos de sempre do que por petistas, como revelam as delações), como sempre existiu desde que os portugueses se apossaram das terras dos índios. Corrupção que antes corria solta e raramente se tinha notícias, que só veio à tona de forma tão explícita agora, graças às leis e mecanismos instituídos pelos governos petistas e, também em virtude da caça ao PT fabricada e orquestrada pelas velhas raposas que tomou conta desse insano e cego país, não com o objetivo de barrar a corrupção, e sim de que ela voltasse a ser varrida pra debaixo do tapete e para derrotar o Brasil vencedor e justo que as políticas capitaneadas por Lula e Dilma vinham produzindo.
A meta e o alimento daqueles que golpearam a democracia, cara pálida, nunca foi passar o Brasil a limpo. Até porque eles são os verdadeiros bandidos dessa história e desde sempre possuem ficha suja e culpa no cartório. O que eles querem – e estão conseguindo – é usar esse teatro todo para jogar nosso país de volta ao passado de miséria, desigualdade, violência, falta de esperança e submissão diante da torpeza das nações que se julgam “donas do mundo”.

A ideologia invisível e a ausência de projeto de nação (por Stela Farias)

A Fundação Perseu Abramo publicou o resultado de uma pesquisa qualitativa intitulada “Percepções e valores políticos nas periferias de São Paulo” em que fica demonstrado o motivo do sucesso dos governos do Partido dos Trabalhadores. A população de baixa renda reconhece o papel dos programas sociais criados por Lula, como principal responsável por sua inserção no mercado de trabalho, por possibilitar real ascensão social, principalmente através das políticas de acesso ao ensino superior. A pesquisa também demonstra que essa população é conservadora, valoriza o empreendedorismo e quer que as políticas públicas criem oportunidades de crescimento.
Quase que imediatamente, já apareceram as primeiras leituras distorcidas do trabalho da Fundação, afirmando que a população prefere as políticas neoliberais que pregam a desregulamentação da economia e o fim do Estado. Quem faz isso são os mesmos que não oferecem alternativa nenhuma à essa mesma população, tampouco à sociedade brasileira. Preferem manter-se fiéis à estratégia clássica do neoliberalismo: utilizar-se de crises circunstanciais ou provocadas, para impor políticas impopulares, enquanto as pessoas estão distraídas pela preocupação com sua própria sobrevivência.
Se as populações periféricas aparecem como conservadoras é porque elas sim, têm muita coisa a perder, pois o pouco que conquistaram ao longo de décadas de condições desiguais, de preconceito e de falta de oportunidade, lhes custa muito caro e mais do que nunca está sob ameaça.
Os adversários do PT, da esquerda e da democracia, precisam urgentemente demonstrar o que têm a oferecer ao país. Até agora, junto com Michel Temer e o fim da democracia veio o aumento vertiginoso do desemprego, entrega das riquezas naturais para o capital estrangeiro – em especial as reservas petrolíferas estratégicas em qualquer outro país – a falência de setores que despontaram nos últimos 15 anos, como a indústria naval, o fim dos programas sociais, o aumento de violência e um pacote de retrocessos trabalhistas e previdenciários sem precedentes na história do Brasil e que vai devolver o país à patamares da década de 20, antes do advento da CLT.
Por isso, o neoliberalismo, essa ideologia invisível, silenciosa, que seus defensores raramente citam nominalmente, mas que a praticam assim que assumem cargos eletivos, impondo ao conjunto da sociedade fórmulas que ao redor do mundo produziram fome, desemprego, violência, desigualdade, poluição e destruição ambiental, precisa é ser combatida.
Exceto por interesses bem particulares, não há porque defender uma ideologia que desde sua aplicação tornou o crescimento econômico muito mais lento em boa parte do mundo e para uma pouquíssima casta, beneficiada, paradoxalmente, por políticas públicas sem critério, ou por que seus despachantes no poder público lhes repassam estatais a preço de banana.
Aqueles que defendem a desigualdade como uma qualidade do mercado, precisam urgente caminhar na direção oposta e oferecer algum projeto político real, que comece nas urnas e não no tapetão. Não possuem projeto político, como não tratam de interesses de ordem republicana, democrática e muito menos popular.
Sempre que o mercado entra em crise é para o Estado que eles correm, em busca de fundos, de orçamento público, de isenções fiscais e alteração em leis trabalhistas, que invariavelmente sacrificam os trabalhadores para garantir sua alta lucratividade.
Até quando vamos tolerar manobras antidemocráticas que atentam diretamente contra os interesses nacionais e dia-a-dia no pós-golpe, empurram o Brasil de volta para a miséria, o desemprego, a desigualdade e a desorganização interna? Até quando vai a tolerância à turma do achaque internacional das riquezas nacionais e dos direitos dos trabalhadores e trabalhadoras brasileiras?
Stela Farias é deputada estadual, líder da Bancada do PT na Assembleia Legislativa.

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