Sobre o Blog do Toninho

O Blog busca retratar coisas da vida interiorana e do meu interior, numa abordagem que mistura reflexão, notícias, riso, poesia, musicalidade, transcedentalidade e outras "cositas más". Tudo feito com produções próprias, mas também com a reprodução do pensar ou do sentir dos grandes gênios que o país e a humanidade pariram.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Momento poético




A FALTA QUE AMA


Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.

Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.

A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.

Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se, inteira,
em letras de conclusão.

Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?

O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.

No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É a falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?


(Carlos Drummond de Andrade)

terça-feira, 9 de julho de 2019

Defender o patrimônio dos gaúchos é defender os hervalenses



Durante a década de 1990, com a hegemonia do pensamento e do modo de governar neoliberal, as privatizações ou praticamente a liquidação do patrimônio público lucrativo era alardeada como a única solução para promover a modernidade e o equilíbrio das contas públicas. O RS com Britto seguiu essa receita e, ao contrário do prometido, tal escolha se revelou uma das principais causas do desequilíbrio das contas e do endividamento do setor público em âmbito estadual. Pois esse fantasma, que parecia ter sido exorcizado pelo sucesso de pouco mais de uma década do projeto pós-neoliberal liderado e levado a efeito pelo Partido dos Trabalhadores e aliados em nível nacional, voltou a nos assombrar e criar um horizonte sombrio. Contudo, não quero entrar no mérito desse debate, tem coisas que não adianta cantar a pedra antes e só o tempo é capaz de descortinar e tornar claras aos olhos do senso comum. O presente escrito, então, tem como intento dizer da importância de defendermos as estruturas e os serviços públicos a cargo do governo do estado em nosso município, uma vez que os mesmos além de assegurar políticas públicas essenciais, são fundamentais para ajudar a girar a roda da nossa economia.

Temos em Herval duas escolas estaduais, Banrisul, Corsan, Inspetoria Veterinária, DAER, Polícia Civil, Brigada Militar e CEEE, cuja venda foi aprovada recentemente pela imensa maioria do Parlamento Gaúcho, atendendo ao pedido do governador. O que esses órgãos possuem em comum? Todos pertencem e devem ser mantidos pela gestão estadual. Outro ponto em comum, é que todos eles ocupam ou deveriam ocupar papel de destaque no cenário hervalense, pelos serviços que possuem a missão de prestar, mas também pelo dinheiro que injetam e fazem circular na economia local, através dos investimentos que precisam realizar e por criarem um mercado de consumidores, que são os servidores destacados para prestar serviço nessas estruturas.

Além disso, os órgãos públicos são vitais por deixarem de visar somente o lucro, eles precisam cumprir um papel social, o que favorece a população no caso do acesso ao abastecimento de água e energia elétrica, por exemplo, com tarifas sociais; assim como por gerarem um equilíbrio em termos de mercado, dificultando a formação de cartéis ou monopólios. Retirem completamente de campo as empresas e/ou serviços públicos num determinado setor, e o cenário será de competição desenfreada e "desonesta" pelo lucro a qualquer preço, com o consumidor pagando a conta; serviços de baixa qualidade; perda de expertise, acúmulo tecnológico e de soberania, nos tornando reféns de produtos e serviços estrangeiros; direitos essenciais da população sendo transformados em mera mercadoria e outras “cositas más”.

No caso de Herval, vale recordar o Programa Luz Para Todos, que levou energia elétrica para mais de 300 moradores da zona rural, iniciativa que se tornou real pelo fato de ter sido capitaneada pela CEEE, uma vez que nas regiões em que as responsáveis pela oferta de energia elétrica era uma empresa privada, as coisas demoraram muito mais a acontecer. Outra questão são os limites no que se refere ao abastecimento elétrico em nosso município, decorrentes da localização, das características das redes instaladas e por contarmos com um único alimentador elétrico. Mesmo com essas dificuldades, o trabalho abnegado dos servidores e o perfil público da CEEE assegura um abastecimento regular de energia elétrica à nossa população. Alguém acredita que uma empresa privada, que visa o lucro e atende as demandas da população pelo telefone a milhares de quilômetros de distância, vai se preocupar se os hervalenses estão ou não sendo atendidos pela energia elétrica?

O mesmo vale para o abastecimento de água, os serviços de inspeção animal, a manutenção das estradas estaduais, a segurança pública praticamente abandonada em Herval nos últimos anos. Sem falar na educação, aonde os professores e profissionais convivem com o parcelamento de salários desde o governo Sartori, fato que gera transtornos pessoais e contribui significativamente para debilitar nossa economia.

Nunca defendi que o governo seja dono de tudo, o que caracterizaria um estado máximo, inclinado à burocratização, ineficiência e corrupção. A questão é que a população tem direito à oferta de serviços essenciais, os quais precisam ser prestados pela ação do poder público. Outra questão é que um governo precisa ser uma alavanca do desenvolvimento, e nunca uma agência de leilões, cujo principal foco e função é vender o patrimônio público a preço de banana, com a falsa promessa que essa é a única solução e, em lugar disso, manter o rombo nas contas públicas e abrir caminho para a precarização e o encarecimento de serviços indispensáveis ao progresso local e à qualidade de vida dos indivíduos. Por isso, mesmo pregando no deserto insisto que a gestão estadual deve cumprir seu papel de fortalecer os órgãos públicos que prestam serviço nos municípios, e não simplesmente transferir ou se livrar das suas responsabilidades. Enfim, num município tão carente de recursos e investimentos como o nosso, defender o patrimônio dos gaúchos, mais que defender um modelo de gestão, é defender o acesso a serviços garantidos pela Constituição e dias melhores para os hervalenses.


Licença poética



Peço licença novamente para entregar-lhes outras palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...


Sonho ser cupido para acertar teu coração,

Sussurrar palavras de amor e safadeza em teu ouvido,

Sentir teu sol incendiando o interior do meu ser,

Fazer de ti meu mel e o pior castigo.


Nem só de pão viverá o homem





sexta-feira, 5 de julho de 2019

Momento poético




POEMA DE VIOLETA PARRA

Amaldiçoo no alto céu

Amaldiçoo no alto céu
a estrela e seu fogaréu,
eu amaldiçoo o corcel
e a sua crina no breu,
amaldiçoo no subsolo
a pedra e seu contorno,
amaldiçoo fogo e forno,
pois minh’alma está de luto,
amaldiçoo os estatutos
do tempo e seu modorro,
quanto durará minha dor.

Amaldiçoo Pico da Bandeira
e Mata Atlântica na costa,
amaldiçoo, senhor, a estreita
como a larga faixa de terra,
também a paz e a guerra,
o franco e o caprichoso,
eu amaldiçoo o cheiroso,
pois morreram meus anseios,
amaldiçoo todo o certeiro
e o falso com o duvidoso,
quanto durará minha dor.

Amaldiçoo a primavera
com seus jardins em flor
e do outono a sua cor,
eu o amaldiçoo deveras;
a nuvem passageira,
a amaldiçoo tanto, tanto,
pois me ajuda um quebranto.
Amaldiçoo o inverno inteiro
como o verão embusteiro,
amaldiçoo profano e santo,
quanto durará minha dor.

Amaldiçoo o peito varonil
e o berço esplêndido,
amaldiçoo todo emblema,
o Olimpo e o pau-brasil,
o mico-leão e o azul anil,
o Universo e seus planetas,
a terra e as suas cavernas,
pois me descorçoa uma tristeza,
amaldiçoo mar e correnteza,
seus portos e caravelas,
quanto durará minha dor.

Amaldiçoo lua e paisagem,
as praias e os desertos,
amaldiçoo morto por morto
e os vivos, do rei ao pagem,
a ave com sua plumagem,
os amaldiçoo como artífice,
os professores e pontífices,
pois me flagela uma dor,
amaldiçoo a palavra amor
com toda a sua porquice,
quanto durará minha dor.

Amaldiçoo enfim o branco,
o preto e o amarelo,
os bispos e os ateus,
hospitais e ministérios,
os amaldiçoo chorando;
o livre e o prisioneiro,
ao manso e ao brigão
eu jogo minha maldição,
em grego e em palavrão
por culpa de um traidor,
quanto durará minha dor.

(tradução de Ricardo Domeneck,
publicada originalmente no terceiro número impresso
da Modo de Usar & Co.)


Rir é o melhor remédio



quinta-feira, 4 de julho de 2019

Música para os meus ouvidos


Um tapa na cara dessa sociedade hipócrita, egoísta e assassina.
Uma canção para tocar no pouco de humanidade que ainda nos resta...




Ato político


Juiz ladrão, qual é a solução? Eis a pergunta que não quer calar.

Moro morreu

Em si, Sergio Moro não tem mais importância na política brasileira. Todos os verbos que se referem a ele estão no passado.  

Chegou a ser uma hipótese de figura de primeira grandeza, quando surgiu para a opinião pública nacional como o juiz ferrabrás de uma tal Lava Jato. A maioria não o conhecia e somente os mais interessados no dia a dia do Judiciário sabiam quem era.   

Às vezes, acende-se uma pequena luz no quadro da política. Pode ser um prefeito que chama a atenção, um procurador inovador, um ministro que se destaca, um empresário com boas ideias. Ser governador de estado aumenta a chance de ser visto.

 A luz se acende, mas costuma apagar-se. É preciso mais que a oportunidade para criar um personagem relevante. No mínimo, é necessário ter carisma e substância.   

Tome-se o caso de alguém cujo conceito original se enraizava em lugar semelhante ao de Moro no imaginário da sociedade. A luz de Fernando Collor faiscou em 1987, quando assumiu o governo de um dos menores estados do País com a bandeira da “guerra aos marajás”. Recebeu toda a ajuda que teve (e não foi pouca), mas só virou presidente porque a matéria prima de sua imagem era forte, várias vezes mais forte que a do ex-juiz.   

O nome de Moro chegou a ser incluído em algumas pesquisas na ultima eleição. Em uma do Datafolha de final de setembro de 2017, não alcançava 10%, apesar de ser conhecido por quase 80% dos entrevistados (Collor, em condições semelhantes - a onze meses da eleição e entre quem o conhecia -, passava de 40%). Números decepcionantes para alguém com tantas pretensões, que devem tê-lo ajudado a desistir da aventura.    

Percebendo que seu cacife era pequeno, Moro provavelmente avaliou que o melhor caminho seria tornar-se um “grande eleitor”, assumir o governo com o vitorioso e, a partir daí, garantir uma poltrona na primeira fila da política nacional. A esse projeto se dedicou desde o começo de 2018, esperando, pelo menos, o prêmio de consolação de uma cadeira no Supremo.
  
Cumpriu o combinado com Bolsonaro e o antipetismo, correndo para tirar Lula da eleição, custasse o que custasse, passando por cima das normas mais básicas do Direito. Graças ao The Intercept Brasil, temos agora uma ideia de como ele e sua turma agiram para interferir na eleição. Nada, porém, que surpreenda quem se lembra de suas fotos debochadas com Michel Temer e os amigos tucanos.   

Deu o passo seguinte tornando-se logo ministro de Bolsonaro, mas, outra vez, foi além do que as pernas alcançavam. 

Com ignorância e arrogância, supôs que o ministério da Justiça seria um trampolim, achando que conseguiria tirar de letra o problema da segurança no Brasil.  

De novembro de 2018 até ser abatido pela exposição de suas manobras, Moro foi incapaz de dar sequer o primeiro passo para alcançá-lo. Não mostrou ter noção, visão, interpretação ou proposta para lidar com a questão.    

As revelações até agora publicadas do Intercept (e deve haver outras) bastam para colocar uma pá de cal nas ambições de Moro. Sua inépcia administrativa já havia, no entanto, feito com que sobrevivessem apenas na fantasia.   

Bolsonaro e o bolsonarismo erram, contudo (como é regra), ao rir-se das desventuras de Moro e de seus patéticos esforços de se agarrar a eles para não afundar. O ex-juiz ainda tem apoio na sociedade, mesmo que cadente e cada vez menos determinado pelo que objetivamente é e faz hoje. Destituído de futuro, sem um presente que possa ser defendido, resta como símbolo de um passado, em que era ampla a sustentação da Lava Jato e da hipotética renovação que representaria. Os que permanecem presos a essa ilusão não podem admitir a morte de Moro.   

Quem o patrocinou lá atrás, como o sistema Globo, um pedaço da cúpula do Judiciário e do Exército, só o jogará fora se não houver jeito. É o único herói da “revolução gloriosa” que fabricaram, a luta para acabar com Lula e o PT a pretexto de erradicar a corrupção. Sem Moro, a imagem do projeto que arquitetaram é o constrangedor retrato do zoológico bolsonarista. Para todos, bem como para Bolsonaro e seu governo de figuras ridículas e inexpressivas, a morte política de Moro é um revés.    
     
Há outra hipótese, de Moro ser capaz de resolver seu problema e Bolsonaro mostrar-se um presidente competente na solução de crises, mas podemos descartá-la. Os próximos meses serão piores para o capitão.


Marcos Coimbra

Marcos Coimbra é sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi

Momento poético

A FALTA QUE AMA Entre areia, sol e grama o que se esquiva se dá, enquanto a falta que ama procura alguém que não ...