quinta-feira, 27 de julho de 2017

Momento poético





Ato político


O velho e sempre atual Karl Marx lá atrás já havia sentenciado: a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.

No caso brasileiro essa máxima se encaixa como luva. Primeiro a tragédia do golpe militar, agora a farsa golpista que tomou o poder de assalto num "grande acordo nacional" para tirar Dilma e colocar o Michel, envolvendo o Supremo e tudo mais, conforme revelou a gravação na qual Romero Jucá escancara não apenas a decisão política, mas o roteiro e os "parças" do golpe.

Pena que o povo brasileiro não conhece a história e prefere caminhar tresloucadamente em busca de um eventual salvador da pátria. Pena que o povo brasileiro não conhece as engrenagens, os limites e inimigos do poder para quem se atreve a diminuir minimamente as desigualdades no Brasil e dá asas para raposas cuidar do galinheiro. Pena que o povo brasileiro não sabe distinguir os lados que disputam o poder e os personagens que compõem a nossa história, deixando-se seduzir e cair nas armadilhas dos vilões de sempre.



Lula não é o primeiro, nem será o último

por Henrique Fontana


Lula não é o primeiro presidente condenado na história do Brasil, como quer fazer crer a grande mídia, antes dele João Goulart e Juscelino Kubitscheck já haviam sido condenados por “crimes políticos”, e da mesma forma tiveram seus direitos políticos cassados em um outro golpe, o de 1964. Dilma Rousseff também pagou por um crime que não cometeu, que sequer existiu. Isso sem falar em Getúlio Vargas. Os golpes de classe, militares ou não, invariavelmente, condenam presidentes dos períodos democráticos anteriores, e também, invariavelmente, buscam se manter no poder sem ter que se sujeitar ao incômodo das eleições e do voto popular. Mais de vinte anos de ditadura e um de Temer que o digam.
O juiz Sérgio Moro é peça de uma engrenagem complexa, e sua sentença sem provas contra Lula, parte de uma operação com evidente caráter político. Claro que desejamos que aqueles que cometeram crimes de corrupção sejam punidos, dentro do devido processo legal, nos marcos da Constituição Federal, sem exceções. Mas a inversão do ônus da prova, que na decisão de Moro cabe ao acusado e não aos acusadores, revela mais uma face do regime de exceção que se instala no país, e todo o risco que isto significa ao Estado Democrático de Direito.
Ao mesmo tempo, o processo contra Aécio Neves é arquivado, sua irmã e primo são libertados, Geddel Vieira Lima deixa a prisão, as esposas de Eduardo Cunha e Sérgio Cabral são absolvidas por falta de provas, Eliseu Padilha e Moreira Franco seguem ministros, e Temer manobra no Congresso Nacional com distribuição de emendas e de cargos aos deputados da base aliada para se manter na presidência. Tudo isso em meio a aprovação da reforma trabalhista, que retirou grande parte dos direitos dos trabalhadores em favor dos “mercados”.
A confusão proposital que mistura “joio com trigo”, encobre culpados, condena inocentes, e favorece os que desejam criminalizar a política seletivamente e a esquerda indiscriminadamente. Ao longo de anos de acusações e de verdadeira devassa da vida de Lula, quem será capaz, por exemplo, de citar uma prova irrefutável de corrupção do ex-presidente? Quem sabe uma gravação incriminadora, como de Temer ou Aécio; contas no exterior, como de Eduardo Cunha e Sérgio Cabral; ou ainda, a posse documentada de fazendas e imóveis, como de Geddel e Padilha? Em tudo a condenação anunciada por Moro revela parcialidade, injustiça, e claro objetivo político, ao buscar inviabilizar a candidatura de Lula à presidência do Brasil.
O golpe cometido em 2016 fará quantas vítimas forem necessárias para se manter no poder e garantir sua agenda de reformas regressivas, ajuste fiscal e austeridade seletiva contra a gente pobre e trabalhadora desse país, como de resto fizeram outros golpes antes deste. Lula não é o primeiro, nem será o último. E ainda tentará colocar no poder quem melhor os servir, hoje é Temer, amanhã pode ser Maia, no futuro, quem sabe um João Dória.
O aprendizado da história nos mostra que somente a força de uma cidadania ativa, através de eleições livres e diretas, pode nos fazer retomar o caminho da democracia e do Estado de direito.

terça-feira, 25 de julho de 2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Autorretrato



"Yo", parlando.

Licença poética



Peço licença novamente para entregar-lhes outras palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...


Vamos sair para passear.
Vamos sair para dançar.
Vamos sair para jantar.
Vamos sair para cantar no karaokê.
Vamos caçar Pokémon...

O programa pouco importa, pois o melhor é tua companhia e fazer parte dos teus planos.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Ato político


“O grande problema do Brasil é o serviço e os servidores públicos”, já diziam os badaladores do “estado mínimo” na década de 1990. Para eles quanto menos estado, mais eficiência e justiça para todos. O estranho é que após a enxurrada de privatizações promovida por FHC e seus seguidores, como Britto no RS, o resultado foi exatamente o oposto. O mesmo se verificou em todos os países do mundo que seguiram essa receita, a exemplo da Argentina. Os próprios Norte Americanos defendem o estado mínimo apenas para os outros, já que eles criaram inúmeras estruturas e mecanismos visando que o público pudesse contrapor ou até mesmo frear o excesso de interesse privado nas relações e negócios.
Na prática, o estado mínimo aumenta o fosso que separa ricos de pobres, além de ferir de morte a estrutura estatal restante, uma vez que não raro os privatistas entregam para meia dúzia de investidores uma mina de lucros (vide o caso da Vale) enquanto o conjunto da sociedade herda as dívidas e ainda precisa conviver com a falta dos recursos ou do papel estratégico desempenhado por essas empresas dentro do mercado, como ocorreu com a venda de parte da CEEE.
Ou seja, quem compra as empresas estatais fica com o filé mignon e o estado (e consequentemente a sociedade toda), arca com os prejuízos e ainda leva a fama de que a estrutura pública não funciona e só serve para garantir privilégios.
Nem o estado máximo de países como Cuba nem o estado mínimo dos neoliberais, que deixa um rastro de miséria, deturpação da democracia, desmonte de políticas e das instituições públicas, exploração humana, destruição ambiental e outras maldades mais por onde passam. Defendo o estado necessário ou do tamanho exato para garantir crescimento econômico combinado com justiça social, numa parceria produtiva, não predatória e fundada em bases democráticas entre o setor público e a iniciativa privada.
Não é exatamente o que discute, mas é nesse contexto que se insere o escrito de Juremir Machado da Silva que ora compartilho.

Governos sem projeto caçam funcionários públicos

Houve tempo, não muito distante, mítico ou real, embora cada vez menos lembrado, em que candidatos apresentavam programas aos seus eleitores durante campanhas animadas e governantes executavam projetos aprovados nas urnas. Era simples, prático e com algumas decepções. Acabou. Olho a cena nacional, em nível municipal, estadual e nacional, e o que vejo? Algum projeto? Nenhum. Alguma ideia de desenvolvimento? Nenhuma. Nas três esferas, a dinâmica é enfadonhamente a mesma: combater o inimigo público número um. Quem é? O funcionário público.
Existem distorções e privilégios? Certamente. Só que as estratégias em curso não parecem voltadas para combatê-los. Há alguma reforma avançando para retirar benefícios imorais autoconcedidos como o auxílio-moradia da magistratura? Não creio. O funcionário tornado alvo dos governantes sem projeto de desenvolvimento é o da parte menos aquinhoada da tabela. O funcionalismo passou a ser visto como corporação. Os políticos que defendem a eliminação dos privilégios das corporações de funcionários públicos não abrem mão das suas pencas de assessores inúteis nomeados pelos bons serviços na caça aos votos, nem, em alguns casos, das suas aposentadorias especiais escandalosas.
O ideal dos políticos sem projeto não é a melhoria da vida de todos, mas o achatamento das condições de aposentadoria da totalidade. Vamos combinar que a aposentadoria pelos valores do INSS é miserável. Quando todos ganham menos, o capitalismo agradece. Sobra mais para os donos do capital. O mundo já faz o que o Brasil quer fazer? Existem países na contramão da história. A Suécia é um deles. Capitalista e socialdemocrata, privilegia o interesse geral, não o ganho de poucos. Esses políticos sem projeto andam fugindo dos debates. Querem falar sozinhos. Sentem-se desconfortáveis no confronto de ideias. Podem ser desmentidos quando esquecem de dizer que funcionários públicos não têm FGTS, contribuem sobre a totalidade do salário e com alíquota maior.
O funcionalismo precisa fazer também a sua autocrítica. O interesse da coletividade é fundamental. Só que essa ideia esconde um sofisma: trabalhar para o contribuinte não significa ter de abrir mão de condições de labuta adequadas e da conquista de direitos. O gestor hipermoderno vende uma ilusão: se o Estado for mínimo, o custo será baixo e a satisfação será máxima. A falta de imaginação seria compensada com a desmontagem do serviço público com base na ficção de que a iniciativa privada faz tudo melhor e mais rápido. É preciso combinar essa fórmula com os suecos e com outros países europeus. Esses caras têm a mania de oferecer serviços públicos de qualidade.
Os gestores sem projeto nem imaginação sonham em alterar a regra do jogo com o jogo terminando. Isso poderia ser aplicado aos seus mandatos. Não satisfaz mais a sociedade, falhou, encurta. Só que não está regulamento. Uma boa reforma das estruturas públicas poderia começar de maneira simples: nenhum vereador terá mais de um assessor, nenhum deputado estadual terá mais de dois assistentes, nenhum prefeito ou governador terá qualquer mordomia. Cada um pagará diariamente até o cafezinho que tomar no seu gabinete. Água de graça. Nada mais do que isso.  E já bastante para que o fazem.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Momento poético



A AUSENTE

(Vinícius de Moraes)


Amiga, infinitamente amiga
Em algum lugar teu coração bate por mim
Em algum lugar teus olhos se fecham à ideia dos meus.
Em algum lugar tuas mãos se crispam, teus seios
Se enchem de leite, tu desfaleces e caminhas
Como que cega ao meu encontro...
Amiga, última doçura
A tranquilidade suavizou a minha pele
E os meus cabelos. Só meu ventre
Te espera, cheio de raízes e de sombras.
Vem, amiga
Minha nudez é absoluta
Meus olhos são espelhos para o teu desejo
E meu peito é tábua de suplícios
Vem. Meus músculos estão doces para os teus dentes
E áspera é minha barba. Vem mergulhar em mim
Como no mar, vem nadar em mim como no mar
Vem te afogar em mim, amiga minha
Em mim como no mar...

Autorretrato


"Tão bom morrer de amor e continuar vivendo".

segunda-feira, 17 de julho de 2017

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Pensar é preciso


O caçador e seu troféu
(Luís Fernando Veríssimo)
Nada contra Moro, o justiceiro da República. Mas não posso deixar de pensar nele como um caçador na sua sala de troféus, cercado pelas cabeças de suas presas. Nesta parede, a cabeça de um tigre, na outra, a de um leão, na outra, a de um búfalo. E agora, num lugar de destaque, a cabeça do Lula.
Moro pode muito bem dizer que nenhuma presa lhe exigiu mais coragem e sangue frio, daí seu lugar de destaque na parede. Que fera seria o Lula?
A cada animal abatido pelo nosso destemido caçador corresponde uma biografia e uma justificativa para sua queda. Ao contrário do búfalo, por exemplo, que só morreu porque o caçador acertou o tiro, a razão para abater o Lula é complicada.
Foi para afastá-lo definitivamente da eleição de 2018? Foi pela sua biografia como líder do primeiro governo a enfrentar a oligarquia e distribuir renda na história do Brasil? Foi (a razão do caçador) porque ganhou um apartamento tríplex que nunca ocupou?
De qualquer maneira, era preciso coragem e sangue frio para abater a fera. O Moro se admirou com a própria audácia e declarou que a prisão não é para agora. Querem testar a reação da massa, antes. Mas a cabeça do Lula está lá, na parede.


Licença poética



Peço licença uma vez mais para entregar-lhes novas palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...


O dia acordou nublado, mas bastou colocares o pé na rua para o céu limpar.


Nem o sol quer perder o espetáculo que é te admirar da cabeça aos pés.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Ato político

Segundo ensina uma lei elementar da física, “toda ação gera uma reação igual e contrária”.
Neste sentido, o golpe na democracia e numa presidenta honesta e legitimamente eleita pelo voto popular não poderia produzir bons frutos, como propugnavam os incautos e oportunistas de plantão.
Além de golpear a democracia, o golpe que continua em curso no país, também golpeia de morte aqueles que mais precisam com a retirada de direitos que garantem o mínimo de dignidade aos pobres, bem como ajuda a roda da economia a girar, sobretudo, nos “grotões” desse imenso e insano Brasil.
Para aqueles que ingenuamente esperavam algo melhor com o golpe, agora se deparam e outros tantos ainda fingem não ver que estamos diante de um dos piores Brasis de todos os tempos, sendo que o pior está por vir, na medida em que os remédios amargos aplicados por Temer e seu bando de ladrões (ladrões de dinheiro, do poder e da esperança do país avançar) começarem a fazer efeito.
Sou um otimista inveterado, mas também não sou bobo e busco enxergar aquilo que tá na cara: o golpe interrompeu a marcha do Brasil rumo ao futuro depois de séculos de atraso e sepultou o sonho de milhões e milhões de brasileiros de continuar progredindo na vida. Tal golpe também representa a vitória da pilantragem sobre o respeito às regras do jogo, a vitória da politicagem sobre a boa política, a vitória da bandidagem sobre os valores civilizatórios e da ética.


A irresponsabilidade da opção Maia
O núcleo político, econômico e midiático, condutor do golpe de 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff, trama a reorientação da sua estratégia diante do provável fracasso do governo Michel Temer. Pretende rifar o presidente impopular e acusado de corrupção para colocar em seu lugar o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), conhecido como ”Botafogo” nas planilhas de pagamentos de propinas da Odebrecht, reveladas pelas investigações da Lava-Jato. Deseja fazer isso, mais uma vez, burlando a democracia, por fora do processo eleitoral. Maia será o novo “CEO” do mercado financeiro e das elites econômicas nacionais, na presidência do país, para conduzir as reformas regressivas, previdenciária e trabalhista, e realizar os ajustes fiscais sobre programas sociais e o contingenciamento do orçamento público que atinge justamente os mais pobres.
O risco da opção Rodrigo Maia não significará apenas “mais do mesmo”, pois apoiou e foi apoiado por Temer e os tucanos liderados por Aécio Neves. Ele representará o agravamento da crise política e a nova ofensiva conservadora contra os direitos do povo brasileiro. Significará a retirada de um presidente sem legitimidade, acusado de corrupção, por outro, interino, com ainda menos legitimidade, também acusado de corrupção e que pretende servir aos interesses do mercado financeiro contra os interesses da nação. O que estes setores pretendem fazer com o país é da mais alta irresponsabilidade e pode comprometer gravemente o nosso futuro.
O deputado Maia, assim como Eduardo Cunha, nunca escondeu a quem serve. Recentemente, afirmou em entrevistas que “a reforma trabalhista é tímida” e que a “Justiça do Trabalho não deveria nem existir”, e que “a agenda da Câmara, em sintonia com a do presidente Michel Temer, tem como foco o mercado, o setor privado”. Este é o senhor que querem para governar o Brasil.
O país vive uma das mais profundas e persistentes crises política, econômica e social do período republicano. São três anos de instabilidade das instituições democráticas com alto custo social e deterioração evidente dos indicadores econômicos. O governo Temer derrete em meio às denúncias de corrupção que envolvem diretamente o presidente e seus assessores e ministros mais próximos, além do desemprego crescente, paralisação de investimentos, interrupção ou redução de políticas públicas, aumento da insegurança e da violência, insolvência dos estados endividados, corrupção sistêmica, redução da produção e ameaças ambientais. Agora, mais uma vez estamos diante do iminente afastamento de Temer, para ser julgado no STF por corrupção, corretamente, e a provável formação de um segundo governo ilegítimo. O povo brasileiro não suporta mais, não merece pagar um preço tão alto por improvisações políticas e governos sem a legitimidade democrática.
A desorganização administrativa, a crise de representatividade, as suspeitas que pendem sobre as instituições republicanas, a economia paralisada, o enfrentamento entre os poderes, a escalada da violência política, o crescimento da pobreza e da exclusão social, entre outras graves situações, demonstram um momento de excepcionalidade na conjuntura nacional. De outra parte, o evidente esgotamento do sistema eleitoral, sobrestado a espera de uma reforma política, sempre discutida, nunca realizada plenamente; e a necessidade de repactuação do contrato democrático nacional, indicam que a possibilidade de interinidade da Presidência da República, pretendida por alguns seguimentos políticos e econômicos, e em gestação no Congresso Nacional, não representará solução para a profunda crise que vivemos. Da mesma forma, também não é razoável que a sociedade brasileira, vítima de tal degradação política, ainda não tenha sido convocada a se pronunciar em nenhum momento.
A gravidade da conjuntura exige uma medida de excepcionalidade político-normativa, por dentro do ordenamento constitucional vigente. Esta medida deve reconhecer que o melhor remédio democrático para estancar a crise e retomar a normalidade institucional, com estabilidade para o país, é a antecipação das eleições em âmbito federal, para presidente da República, deputados federais e senadores.
A soberania do voto popular poderá, então, restituir a legitimidade política ao governo eleito e ao parlamento, e a estabilidade necessária para o Brasil retomar o caminho do desenvolvimento econômico, social e ambiental. É preciso ressignificar nossa democracia e devolver aos cidadãos o direito de eleger seus representantes no Congresso e, especialmente, o mandatário maior da nação.

Por Henrique Fontana - Deputado Federal do PT/RS

Altas conexões



terça-feira, 11 de julho de 2017

Música para os meus ouvidos


Acordei pensando em ti e invoquei a voz e a poesia de Marcelo Geneci...




Momento poético



VERBO SER

Carlos Drummond de Andrade

Que vai ser quando crescer? 
Vivem perguntando em redor. Que é ser? 
É ter um corpo, um jeito, um nome? 
Tenho os três. E sou? 
Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? 
Ou a gente só principia a ser quando cresce? 
É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? 
Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? 
Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R. 
Que vou ser quando crescer? 
Sou obrigado a? Posso escolher? 
Não dá para entender. Não vou ser. 
Vou crescer assim mesmo. 
Sem ser Esquecer.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Ato político


Como ensina o grande Humberto Gessinger, ao contrário de outras épocas, o problema maior do nosso tempo não é o silêncio, e sim o excesso de fala. É todos opinando sobre tudo ao mesmo tempo, como se grandes entendedores ou estudiosos de diferentes assuntos fossem, com o amparo e guarida das redes sociais.
Numa sociedade evoluída moral e economicamente, massificação das redes sociais significa mais portas abertas para a evolução social e humana. Nas sociedades degradadas, a massificação das redes sociais, pode representar simplesmente a exposição pública exacerbada das misérias e vísceras nossas de cada dia, além do culto desenfreado a tolice. Simples e óbvio assim.
Portanto, nesses tempos macabros que a insanidade anda solta, no qual tolos se auto-proclamam formadores de opinião (ou seria deformadores?), é preciso escolher cuidadosamente as palavras e também ter prudência e cautela no momento de decidir a quem dar VOZ.
Muitos ignoram a sabedoria que ensina que “as únicas palavras que merecem existir são aquelas que forem melhores que o silêncio”. No entanto, em meio a essa gritaria que diz pouco ou nada, ainda existe muita gente lúcida que merece se pronunciar por todos os meios e se fazer escutar, como o jornalista Sergio Araujo.

Sartori e o Rio Grande mudaram. Para pior
Por Sergio Araujo


Quem assiste a propaganda fantasiosa do governo Sartori e desconhece a realidade econômica e social do Rio Grande do Sul fica com a impressão de que o Rio Grande do Sul está mudando para melhor. O mesmo acontece com os sucessivos anúncios palacianos, fartamente destacados pelos meios de comunicação, como a construção de presídios, a recuperação de escolas e o mais recente, a abertura de concurso público para a contratação de milhares de policiais. Não por coincidência, “as boas novas” são acompanhadas de “declarações cirúrgicas” do PMDB, partido de Sartori, de que ele irá disputar a reeleição no pleito de 2018.
Vamos pois, analisar esse panorama. Só mesmo o sentimento de fracasso gerencial, detectado pelas pesquisas de opinião, pode explicar a repentina mudança no comportamento do governador. Outrora enigmático, cauteloso e avesso a manifestações públicas, Sartori se transformou, inexplicavelmente, num bem falante arauto, proclamador de notícias alvissareiras. Bem diferente do evasivo candidato da campanha eleitoral de 2014. Para ficar apenas nas questões afetas às áreas da segurança, educação e transporte, alvos dos anúncios mais recentes, observemos as seguintes contradições:
Enquanto proclama, diante de um salão Negrinho do Pastoreio repleto de integrantes do governo e da base aliada, a construção de novos presídios em Viamão, Alegrete e Charqueadas, o governo do Estado não consegue colocar em funcionamento a penitenciária de Canoas, recebida praticamente concluída do governo Tarso. Enquanto isso, dezenas de detidos continuam aguardando em viaturas improvisadas de casas de passagem a abertura de alguma vaga nos presídios existentes e superlotados.
Da mesma forma e no mesmo segmento governamental, Sartori proclama a abertura de concurso público para a contratação de mais de 6,1 mil novos policiais. O interessante, que não é dito, é que apesar de passados dois terços do mandato do atual governo, ainda restam aprovados no concurso realizado em 2013 (governo do PT), para a Brigada Militar, Policia Civil e Corpo de Bombeiros, que ainda não foram chamados. Se para eles não existe recursos que possibilite suas contratações, como poderá haver para os novos concursados?
Pois até obras começam a ser anunciadas. É o caso da destinação de recursos (não muitos) para a recuperação de escolas e de rodovias. Novas escolas e novas rodovias? Nem pensar. Pois bem, basta visitar aleatoriamente algumas escolas estaduais e percorrer alguns poucos quilômetros de rodovias estaduais para constatarmos que quase nada foi feito no período sartoriano. O que se observa são prédios em precárias condições e rodovias esburacadas. Nem mesmo o tão badalado Programa de Concessões Rodoviárias, que transfere a responsabilidade da administração de algumas estradas do Estado para a iniciativa privada, conseguiu sair do papel.
Não bastasse o início da fase dos factoides eleitoreiros, até mesmo a recomendação emitida em fevereiro deste ano pela Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e pelo Ministério Público de Contas, para que o Executivo estadual restringisse os gastos públicos com publicidade enquanto perdurasse a crise financeira, está sendo obedecida. Como é visível que a situação de penúria continua igual – que o digam os servidores do Executivo -, como explicar a proliferação de propaganda do governo pelos mais diversos meios de comunicação, incluindo sites, blogs e cinemas?
Aliás, talvez por ter se dado conta de que a tentativa de antecipar a campanha eleitoral já foi detectada, o próprio Piratini tratou de criar um antídoto para o entusiasmo governamental. Produziu um vídeo, gravado durante uma reunião do secretariado, onde Sartori, aparentemente exaltado, diz que “quem estiver olhando só para a eleição do ano que vem vai se dar muito mal”. Declaração tão espontânea e verdadeira quanto a propaganda governista, que diz que as reformas promovidas pelo atual governo permitem que os gaúchos tenham esperança em relação aos seus futuros.  Uma mensagem que se contrapõe ao discurso exaustivamente repetido pelo secretário estadual da Fazenda de que “se o Rio Grande ainda não conhecia o caos, agora iria conhecer”.
De todo esse esforço, de todo esse empenho para tentar salvar um governo que pouco fez e que ainda não disse a que veio, o que restará em outubro de 2018, quando os gaúchos escolherem o novo governador, será apenas ruínas de uma guerra recessiva e predatória aos interesses do Estado. E o atual governo quer que acreditemos nas suas boas intenções? Fosse um governo realista, como Sartori tantas vezes prometeu em sua campanha, já teria acreditado naquilo que mais se escuta Rio Grande à fora: Mais quatro anos? Por quê? E para quê?
.oOo.
Sergio Araujo é jornalista.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Licença poética



Peço licença uma vez mais para entregar-lhes novas palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...


Meu mundo cabe nas tuas mãos, amada minha.

Podes girar a vontade.

Peço apenas que não me deixes de cabeça para baixo por muito tempo durante a rotação.


Pois existe o risco do meu olhar deixar escapar os melhores ângulos da tua beleza.

Música para os meus ouvidos


Amor e mentira são notas dissonantes. É look que não combina e ainda briga entre si. São peças de um quebra-cabeças que nunca encaixa. Eis o que cantam saborosamente Roberta Sá e o magistral Chico Buarque...






quinta-feira, 29 de junho de 2017

Momento poético



Como Te Amo


Como te amo? Não sei de quantos modos vários 
Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos; 
Amo-te com o fervor dos meus sentidos gastos; 
Amo-te com o fervor dos meus preitos diários. 

É puro o meu amor, como os puros sacrários; 
É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos; 
É grande como os mares altisonos e vastos; 
É suave como o odor de lírios solitários. 

Amor que rompe enfim os laços crus do Ser; 
Um tão singelo amor, que aumenta na ventura; 
Um amor tão leal que aumenta no sofrer; 

Amor de tal feição que se na vida escura 
É tão grande e nas mais vis ânsias do viver, 
Muito maior será na paz da sepultura! 


Fernando Pessoa, "Inéditos – Poemas de Lança-Pessoa – Manuscrito (Junho/1902)" 

Cenas da vida inventada





terça-feira, 27 de junho de 2017

Música para os meus ouvidos


Antes o romantismo sincero que as almas repletas de sentimentos rotos ou carregadas de ódio enrustido.  




Licença poética



Peço licença novamente para entregar-lhes outras palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...
       
                     
Teu aroma reproduz o dor das flores celestiais.


Aliás, as flores celestiais que tentam imitar teu aroma, porém acabam cometendo o pecado de não chegarem nem perto do teu cheiro único e divinal.

Autorretrato


Amarelo, o cão camarada!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Ato político


A luta continua, brasileiros e brasileiras que não caem na armadilha do "salvador da pátria", nem na arapuca de oferecer nova face ao golpe.

A saída desse beco sem saída é instituir um governo legítimo que, além de credibilidade política, precisa ter votos e falar  a verdadeira voz das ruas, não aquela voz fajuta e inventada que pedia um Brasil Padrão Fifa, mas bastou os seus escolhidos tomarem o poder de assalto para ficarem mudos e aceitarem um nada retumbante no lugar do país que vinha avançando como nunca em nossa história. 

O colapso, a crise, as saídas e as armadilhas

Por Adão Villaverde
Temos afirmado e reafirmado que vivemos e convivemos com uma crise institucional tão profunda que está muito próxima ou, até quem sabe, diante de um colapso de regime.
Depois de jogarem a Constituição no ralo e aprofundarem sua estratégia de destruição da democracia, os golpistas, de um lado, aceleram sua agenda de retirada, a fórceps, dos direitos e conquistas e, de outro, saqueiam e entregam a Nação a interesses não republicanos e anti-nacionais.
Associado a isto, o Judiciário que tinha algum grau de legitimidade em que pese suas falhas e responsabilidades por não ter salvaguardado a nossa Carta Magna, agora está refém da quadrilha que assaltou o poder no Brasil, cujos objetivos não eram combater a corrupção muito menos resolver déficits da economia mas, sim, obstruir a Justiça e bloquear investigações.
Isto tudo ficou comprovado com a vergonhosa absolvição pelo TSE de Temer – e não de Dilma, que já estava cassada, sem provas, por uma maioria golpista.
Os tempos de exceção revelam como agem os déspotas e como usam arbitrariamente a lei impondo suas lógicas de seletividades. Vale o rigor da lei aos seus adversários e sua flexibilização para salvar os seus. Justiça seja feita, o insuspeito ex-ministro do Supremo Nelson Jobim tem insistido na afirmação de que “é muito bom quando os vazamentos e conduções coercitivas ocorrem contra adversários, mas quando são contra os seus, chamam de ataque ao Estado Democrático de Direito e classificam de burla ao devido processo legal. Levará décadas para que justiça brasileira se recupere de danos provocados por juízes descaradamente seletivos e direcionados.
Esta crise tem nome e sobrenome: foi resultado de uma fusão de partidos que renunciaram à ordem democrática e partiram para o ataque a constituição com setores do Judiciário e órgãos de controle, com uma maioria parlamentar corrupta, com certos empresários entreguistas e uma mídia oligopólica, sem qualquer convicção democrática, que atua como braço negocial da defesa da captura do Estado pela financeirização e pelos interesses dos banqueiros. Entretanto, os setores democráticos e progressistas, os movimentos sociais, a juventude, a esquerda, os excluídos, a intelectualidades e as camadas médias esclarecidas não podem “ficar na janela, que nem a Carolina” (como cantou o grande Chico Buarque) acreditando que, vivenciando um regime de exceção, possamos chegar a 2018 iludidos por uma eleição democrática.
Não é amanhã; é agora o momento da luta e do esforço de interromper este indigno e imoral curso que toma o nosso país.
Se lutar agora, é muito mais do que necessário, evitar cair em armadilhas também é fundamental.
Os recorrentes aparecimentos da grande mídia do factoide de um ‘nome de consenso’, após derrubar o ilegítimo Temer, para ocupar, de modo indireto sem a autorização das urnas, o cargo usurpado à presidenta eleita, é uma artimanha muito perigosa que temos que rechaçar a todo custo. Alimentada com simpatia por interesses pouco democráticos, como costumam reverberar os monopólios de comunicação, a proposta escamoteia o golpismo continuado e disfarça o conflito de benefícios em curso, como as antirreformas de Temer, o entreguismo e a captura do Estado pela financeirização e seus negócios. E, naturalmente, impondo a visão neoliberal e o Estado Mínimo.
Aceitando a ideia, seremos envolvidos como satélites dos acordos firmados “por cima” para uma saída à crise. Seremos fiadores e signatários de um conluio que não governará pois, com certeza, faltará legitimidade e sustentação.
Neste quadro nebuloso, o ponto central de resistência está na prática do ‘engrossar as ruas’ aumentando a mobilização popular. É a melhor forma de interditar um acordo forjado de cima para baixo, em gabinetes palacianos, bancas jurídicas, escritórios empresariais ou nos salões dos punhos de renda da financeirização.
Mas, para evitar a cilada, temos que acumular muito, no conteúdo e na estratégia. Devemos apresentar pontos mínimos de compromisso de uma nova frente política, programática e com amplitude. E, no processo da luta pelas “Diretas Já”, trabalharmos para reunir forças e enfrentarmos as arapucas que a Casa Grande oferece:
i) seja a saída de FHC, Meireles e turma, juntos com setores das corporações de fiscalização e controle, do empresariado entreguista e dos banqueiros, escudados pela grande mídia;
ii) seja a do ilegítimo e moribundo Temer que está com os seus dias contados, junto com seu setor tucano e sua patota, totalmente envolvidos em “diálogos criminosos” e relações perigosas, mas que tentam ainda respirar, depois do fôlego que Gilmar lhe conferiu.
Sem tirarmos o golpista e ilegítimo Temer e conquistarmos eleições “Diretas Já” ficaremos reféns do fortalecimento do cenário institucional que vicejará sob a chantagem da inviabilização eleitoral de Lula. Oferecendo saída para “salvá-lo”, podendo propor transição palatável garantindo eleições “democráticas” em 2018. Mas, obviamente, para eles, ao fim e ao cabo, sem o ex-presidente.
Só nos resta continuar, com um mínimo de dignidade, honradez e decência moral reafirmando demandas essenciais e imediatas, eliminando a exceção política, evitando o ataque aos direitos, barrando as antirreformas e descongelando recursos para educação, saúde e programas de inclusão social, como forma de recuperar minimamente a confiança na sociedade, neste momento em que temos um ilegítimo governo que agride o país, ética e moralmente e ainda ataca direitos e conquistas de seu povo.
E no RS exigirmos suspensão imediata das extinções das fundações, derrotarmos as tentativas de venda das empresas públicas, restabelecer o pagamento em dia dos salários e exigir que o governo assuma a liderança nacional em busca dos ressarcimentos da Lei Kandir, como alternativa não submissa de reequilíbrio das contas públicas em solo gaúcho.

Adão Villaverde é professor, engenheiro e deputado estadual (PT/RS).