quinta-feira, 17 de agosto de 2017

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Momento poético




TENTA ESQUECER-ME



Tenta esquecer-me...
Ser lembrado é como evocar
Um fantasma...
Deixa-me ser o que sou,
O que sempre fui, um rio que vai fluindo...
Em vão, em minhas margens cantarão as horas,
Me recamarei de estrelas como um manto real,
Me bordarei de nuvens e de asas,
Às vezes virão a mim as crianças banhar-se...
Um espelho não guarda as coisas refletidas!
E o meu destino é seguir...
é seguir para o Mar,
As imagens perdendo no caminho...
Deixa-me fluir, passar, cantar...
Toda a tristeza dos rios
É não poder parar!



Mario Quintana

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Licença poética



Peço licença novamente para entregar-lhes outras palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...


Meu corpo não tem trancas ou cadeado para prevenir teus ataques.

Sequestra-me e mostra onde mora o perigo ou se esconde o pecado.

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Ato político


A menos que haja uma grande virada nessa caminhada do país rumo ao fundo do poço, Lula deverá mesmo ser jogado atrás das grades de uma prisão. Não porque existam provas irrefutáveis, incontestes e explícitas de que o ex-presidente cometera algum ilícito. Ao contrário. Ocorre que a prisão de Lula já está decretada desde o início da cruzada da velha direita não apenas contra Lula, mas contra as forças políticas progressistas, a democracia e a maioria do povo brasileiro que, querendo ou não, é representado por Luís Inácio Lula da Silva e tudo o que ele significa.

No entanto, é preciso mais que apenas prender Lula. É preciso desmoralizá-lo, esquartejá-lo moralmente, para que ele se torne um morto em vida e a política de crescimento econômico aliada a inclusão social que Lula mostrou ser possível e eficaz, passe a ser vista apenas como símbolo de fracasso e roubalheira.

Nos tempos idos, a velha direita matava e expunha em praça pública o morto que exercera influência junto ao povo para deixar claro o destino de quem se atreve a desafiar os "donos do poder". Hoje os métodos de assassinato "dos heróis da pátria" são outros, mas talvez até mais cruéis que a tortura ou morte do corpo. 


Foto: Ramiro Furquim/Sul21.com.br


O povo deve ser destruído

Um dia após a condenação de Lula por Sergio Moro, um motorista de táxi me perguntou: contente com a condenação de Lula? Quando me ouviu dizer que não, ficou muito alterado e desfiou uma lista de crimes que teriam sido cometidos por Lula para justificar que o Brasil necessitava se livrar dele. Dia 17 de julho, o jornalista, escritor e apresentador de TV, Marcelo Tas, perdeu a costumeira fleuma no programa que coordena na GNT (Papo de Segunda), quando um dos seus companheiros referiu a falta de provas da propriedade do triplex, que fora o mote da condenação de Lula. Tas alterou-se e disse que o triplex era um crime menor e nem tinha importância, mas que Lula deveria ser condenado porque era o responsável pela recessão, por 13 milhões de desempregados, por toda a corrupção e também pelo governo Temer, uma vez que havia feito aliança com o PMDB.

Lula tem mais de 50% de rejeição nas pesquisas de opinião, em que pese ser o pré- candidato com a maior intenção de voto, mas a pergunta que não quer calar é: por que o discurso de ódio contra Lula, que faz sentido a um motorista de táxi, é o mesmo do intelectualizado Marcelo Tas? Uma resposta ligeira e do gosto de todos seria que os motoristas de táxi “são assim” e que Tas é funcionário da Rede Globo (GNT), portanto, parece óbvio que se colocaria desta forma. Entretanto, estas explicações estão longe de dar lastro para ensaiar uma reflexão sobre a crise da esquerda, do PT, sobre o avanço de discursos conservadores, reacionários, racistas , machistas.

O primeiro discurso exitoso contra Lula se expressou em um discurso contra Dilma, mais frágil politicamente, mulher, sem grande apoio no próprio PT, portanto mais fácil de atacar. Dilma foi o primeiro fator unificador do discurso da direita política brasileira em 2014. De fato o objetivo não era ela, mas o afastamento do PT e a retirada do perigoso e popular Lula do campo da disputa política. Inventaram as pedaladas fiscais, afastaram Dilma e não a incomodaram mais. A culpa de Lewandowski , que estava participando da farsa, resultou na não cassação dos direitos políticos da então presidenta.

Afastar Dilma foi só um primeiro passo. Havia importantes políticas neoliberais de ajuste a serem feitas pelos representantes do capital financeiro, da FIESP e da banca internacional. Entre os aspectos centrais das políticas neoliberais, aqui e alhures, estão a retirada dos direitos sociais e a desqualificação das conquistas dos trabalhadores como privilégios. Para que possam ser implementadas, não bastam um golpe e um presidente fantoche, é necessário haver garantias a longo prazo de que não haverá reação do povo. Por isso, é necessário destruir o povo como agente político, como sujeito político coletivo. Esta é a grande missão dos que agora estão no poder, secundados por parte do judiciário e parte do ministério público. Não importa se a reforma da previdência não passar agora, interessa é que ela passe, no ano que vem ou em 2019. Mas é necessário derrotar o povo de forma cabal.

O que Lula tem a ver com isto? Tudo. Lula foi e ainda é um grande líder popular, se identifica com as classes populares que, durante seu governo, viram mudar as suas vidas, as possibilidades educacionais de seus filhos. O mundo viu Lula como uma nova esquerda. Como líder, Lula deu significado ao povo como sujeito político. Maior que o PT, maior que a esquerda, ele articulava as demandas populares, era o povo no poder.

As forças de esquerda em geral e o PT, especificamente, não conseguiram construir lideranças para substituí-lo, não porque Lula não deixou, ou porque o partido não quis, mas porque a existência de Lula impediu que houvesse condições de emergência de novas lideranças, por mais que ele tivesse oposição, dentro e fora do partido.

O poder simbólico que Lula representa precisa ser extirpado do Brasil para que o projeto neoliberal em curso se concretize. Por isso há esforço de arrancar Lula do centro do discurso popular e caracterizá-lo como o grande traidor, o corrupto, o operário que enriqueceu, o responsável pelas mazelas do Brasil, pela desordem, pela violência. É preciso romper o lastro discursivo do povo. Isso não se faz prometendo vantagens, mas exatamente prometendo sacrifícios. Recriando um novo sujeito político, individualizado, “responsável “, trabalhador, que não se interessa por “privilégios”, mas quer trabalhar em qualquer condição. Um individuo que não se preocupa se pessoas sem-teto são acordadas nas ruas geladas por jatos d‘agua, se usuários de drogas são caçados como bichos, se prédios ocupados por famílias que não têm onde morar são desocupados por batalhões de choque da polícia militar. Essas pessoas não importam, são “vagabundos“, perdedores, obstáculos para o restabelecimento da ordem.

Na nova ordem neoliberal não há espaço para povo, para o sujeito coletivo. O que importa é cada um cuidar de si. O fracasso é pessoal, o sucesso está na compreensão dos novos tempos, do trabalho intermitente, do fim das políticas sociais. A nova ordem é a do individuo, não importa se ele é um trabalhador ou um intelectual da mídia. Para que a nova ordem se instale, é necessário acabar com o povo, com a ação do povo como coletivo, por isso é essencial destruir quem melhor o representou na política brasileira contemporânea – Luis Inácio Lula da Silva. Mas não basta colocá-lo na cadeia, antes é preciso destruí-lo como símbolo, o que só acontecerá ao destruir o povo, já que Lula significou o povo por longos anos, décadas.

O motorista de táxi e o intelectual mediático representam muito bem este sujeito individualizado, que se constitui em um discurso de ódio contra Lula, contra o povo. São exemplares característicos dos tempos de pós democracia que vivemos.

.oOo.
Por Céli Regina Jardim Pinto - Professora Titular do Departamento de História da UFRGS.
Publicado originalmente no site Sul21: https://www.sul21.com.br/jornal/o-povo-deve-ser-destruido/

Nem só de pão viverá o homem





terça-feira, 8 de agosto de 2017

Momento poético



Quarenta Anos

A vida é para mim, está se vendo,
Uma felicidade sem repouso;
Eu nem sei mais se gozo, pois que o gozo
Só pode ser medido em se sofrendo.
Bem sei que tudo é engano, mas sabendo
Disso, persisto em me enganar… Eu ouso
Dizer que a vida foi o bem precioso
Que eu adorei. Foi meu pecado… Horrendo
Seria, agora que a velhice avança,
Que me sinto completo e além da sorte,
Me agarrar a esta vida fementida.
Vou fazer do meu fim minha esperança,
Oh sono, vem!… Que eu quero amar a morte
Com o mesmo engano com que amei a vida.

Mário de Andrade

Pitada filosófica





Versos de alma gautia





sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Licença poética




Peço licença uma vez mais para entregar-lhes novas palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...


Meu corpo não tem trancas ou cadeado para prevenir teus ataques.
Sequestra-me e mostra onde mora o perigo ou se esconde o pecado.

Rir é o melhor remédio



quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Música para os meus ouvidos


Para escutar, refletir e cantar junto...




Feliz aniver!!!

















O cara nasceu ontem, mas já chegou aos 15 anos de estrada.

O corpo sarado, contudo, engana e faz muita gente acreditar que ele tem uns 18.

O fato é que mirrados ou sarados, para nós os filhos nunca crescem, são sempre crianças.

O fato também é que eles crescem e, antes mesmo de chegar a idade adulta, são capazes de trilhar um caminho só deles e fazer suas próprias escolhas.

A mim só cabe agradecer a Deus por ter colocado essa piá marrento em minha vida e desejar que ele siga adiante, sempre pelo caminho do bem e sendo motivo de alegria e orgulho para todos que com ele convivem.

Parabéns, filho meu, e um caminhão de felicidades, hoje e sempre!!!!!

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Ato político




Quando o escrito diz tudo, não precisa acrescentar mais nada.

Juremir Machado da Silva diz tudo no texto que ora compartilho, porém nunca é demais repetir que a hipocrisia é uma das grandes doenças desse país. Um mal antigo e que talvez nunca tenha cura.

Se esse fosse um problema que acometesse apenas a classe política, como hipocritamente muitos querem fazer crer, dos males o menor. Acontece que a hipocrisia está no DNA de um povo que costuma "enxergar o argueiro no olho alheio, mas nunca enxerga a trave em seu próprio olho".

Assim, o buraco é mais embaixo e a saída desse beco sem saída se torna menos provável.





Coisa pública e privada



Atribui-se a um crítico anônimo de Robespierre esta frase contundente: “Fui ver o altar da República. Só encontrei os penicos da monarquia”. Se é verdadeira, não importa, pois faz pensar. O quê? Não sei bem. Talvez que a virtude de certos políticos brasileiros é determinada pela hora em que ocorrem os seus encontros com empresários e ao tamanho e potência dos gravadores que os visitantes usam para grampeá-los sem ter de pisotear a etiqueta. A elegância é fundamental. As delações premiadas da Lava Jato já prestaram mais serviços à transparência no Brasil do que cinco séculos de idas ao confessionário, fofocas, torturas e sessões de psicanálise somadas.
Nessa linha de raciocínio, ou de narrativa, como diria o Procurador-Geral da República Rodrigo Janot, conta-se que um senador do Império teria sugerido a um interlocutor incômodo tomar o cuidado de examinar a coisa pública. O dito cujo teria imediatamente se dirigido à privada. Tem lógica. Não confundir com ética. A ascensão de Michel Temer ao poder para combater a corrupção dos governos Dilma e Temer conta mais sobre a hipocrisia nacional do que toda a nossa literatura de costumes. Um personagem menor de Machado de Assis talvez se expressasse com uma fórmula prática: “Prova é quando a acusação atinge nossos adversários. O resto é suspeita sem fundamento”.
– Onde está a prova?
– Diante dos seus olhos.
– Não estou vendo.
– Prova que Benício é culpado.
– Benício, meu opositor?
– Ele mesmo.
– Ah, pensei que estivesse falando do Juca.
– Que diferença faz?
– Toda diferença, meu caro. Juca é dos nossos. Homem da nossa mais estrita confiança. Em se tratando do Benício, a prova é inequívoca.
Um espírito estreito chamaria isso de triunfo do cinismo. Poderia escrever um livro imitando o estilo de Michel de Montaigne ou de La Rochefoucauld em suas “Máximas”: “Hipocrisia é a homenagem que o vício presta à virtude”. Somos o povo mais reverente do mundo. Vivemos prestando homenagens à virtude. Esta é melhor: “Os velhos gostam de dar bons conselhos para se consolarem de não poder dar maus exemplos”. Em nosso caso, o contrário é menos inteligente e mais verdadeiro: “Os velhos políticos gostam de dar maus exemplos para se consolarem de não poder dar bons conselhos”. O livro receberia o título de “Mínimas”.
Chega. Excesso de espírito parece frivolidade ou exibicionismo. Ou falta de conteúdo. Quem muito diz, não é ouvido. Ou não consegue ouvir. O riso é coisa séria. Deve ser praticado com moderação e servido em doses homeopáticas com tarja preta. Um cronista responsável deve medir as consequências dos seus textos. Precisa escrever como um adulto. A maioridade é quando, enfim, podemos fazer coisas menores sem precisar pedir autorização ou dar explicações a ninguém. Um peso.
O Brasil decidirá amanhã se trata Michel Temer como coisa pública ou privada.
Se a votação acontecer e for televisionada ao vivo com voto nominal, Temer pode dançar.
Se os deputados livrarem a cara de Temer, a coisa pública irá à privada.

Nem só de pão viverá o homem