Sobre o Blog do Toninho

O Blog busca retratar coisas da vida interiorana e do meu interior, numa abordagem que mistura reflexão, notícias, riso, poesia, musicalidade, transcedentalidade e outras "cositas más". Tudo feito com produções próprias, mas também com a reprodução do pensar ou do sentir dos grandes gênios que o país e a humanidade pariram.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

Ato político



Juremir Machado da Silva certeiro como sempre. Amparado em outro gênio para desfilar sua genialidade e escorado no futebol para marcar mais um golaço quando aborda a política.

Sem dúvidas, Neymar virou alvo de críticas não por conta do seu desempenho em campo, mas por suas escolhas políticas fora dele e também porque é um rico ignóbil e esnobe diante de uma multidão de miseráveis que matam um leão por dia para serem premiados apenas com o básico e olha lá.

O fato é que um golpe político-midiático é algo muito mais duro e sério que um 7x1 numa partida de futebol. Especialmente quando esse golpe atinge não apenas quem joga o jogo da política, mas justamente essa multidão de famintos (não só de comida) que tinham no projeto político golpeado um fio de esperança e a porta aberta para vencer na vida não apenas pelo caminho do futebol.

Como esperar resignação e o aplauso quando um herói dos golpistas se mostra como uma espécie de vilão ou é mostrado como modelo de sucesso que os golpeados nunca alcançarão?

Ou como disse Umberto Eco, para ser tolerante, é preciso fixar os limites do intolerável.

Vai lá Brasil de Tite e Felipe Coutinho! O Brasil de Neymar e da Globo ainda que seja campeão não passará e não produzirá nada de bom na vida do povo brasileiro fora das quatro linhas! 






Umberto Eco e as Copas 


Umberto Eco foi grande. Falava de tudo. Mas não gostava de futebol. Ele não era o intelectual indiferente à cultura de massa. Ao contrário, consumia de tudo, de histórias em quadrinhos a romances policiais. O futebol, porém, era-lhe estranho. Em 1969 e em 1978, durante a Copa da Mundo da Argentina, ele se meteu no assunto. Na primeira incursão, produziu um texto intitulado “A falação esportiva”. Nele, o futuro best-seller com “O nome da rosa” dizia que nenhum movimento estudantil ou outro seria capaz de invadir um estádio de futebol num domingo. A execração seria total. Não haveria apoio algum.
O semiólogo compreendeu a grande revolução: o futebol como esporte não mais para ser praticado, mas para ser visto. Mais do que isso, para ser objeto de falação: “Se o esporte é praticado para a saúde, como comer comida, o esporte visto é a mistificação da saúde. Quando vejo os outros jogarem, não estou fazendo nada de saudável, e apenas vagamente desfruto a sanidade alheia (o que já seria mero exercício de voyeurismo, como quem olha os outros fazendo amor). Para o teórico da “obra a aberta”, o futebol tornara-se “um discurso sobre a imprensa esportiva” ou um discurso da imprensa esportiva. O seu objetivo não era o gol, mas fazer falar do jogo e do gol. Daí a importância da polêmica. O VAR parece ser a nova etapa da falação.
Na falação, segundo Eco, “neutralizam-se as energias intelectuais”. Todo mundo é expert e todo mundo pode neutralizar o outro como despreparado. A frase mais comum da falação esportiva é “você não entende nada”, que significa “como se atreve a pensar diferente de mim”. Na falação, algo fala através de nós: aquilo que somos. Umberto Eco tocou no ponto mais sensível: fala-se para fazer contato, estar em contato, participar de algo. O problema é que essa lógica tribal empurra cada vez mais para a divisão. Uma tribo não quer mais falar com a outra. Falar por falar para fazer o tempo passar.
Em “O mundial e suas pompas”, Umberto Eco explica o seu desinteresse pelo futebol: nasceu ruim de bola. Mas isso não queria dizer que execrasse a paixão pelo futebol. Considerava-a providencial para canalizar as energias reprimidas das massas: “Sou favorável à paixão pelo futebol como sou favorável aos rachas, às competições de motoqueiros à beira do abismo, ao paraquedismo desvairado, ao alpinismo místico, à travessia dos oceanos em barcos de borracha, à roleta russa e ao uso da droga”. Era possível escrever assim. Eco nunca foi politicamente correto. Podia ironizar a cadeia esportiva.
Falar de esporte, segundo ele, naquele momento era uma maneira de não falar de política. Hoje, no Brasil, parte da crítica feita a Neymar é uma falação política contra a Rede Globo, de quem ele seria protegido, apontada como responsável pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. É só ler os textos dos gurus midiáticos de esquerda para ter a prova. Em tempos de terrorismo e de Brigadas Vermelhas, Eco especulava: “Existe a possibilidade da luta armada no domingo de campeonato? Talvez fosse preciso fazer menos discussões políticas e mais sociologia circense”. Preconceito de intelectual? Pura falação?
Para o italiano Umberto Eco esporte era uma atividade sem fins lucrativos na qual cada um empenhava diretamente o seu corpo. A Copa do Mundo faz parte do espetáculo esportivo. Nele, os jogadores “são profissionais submetidos a tensões não diferentes das de um operário da linha de montagem (afora algumas insignificantes diferenças salariais)”. Atenção, ironia! Já os espectadores se portariam “como fileiras de sexomaníacos que vão regularmente espreitar (não uma vez na vida em Amsterdã, mas todos os domingos, e em lugar de fazer) casais que fazem o amor ou que fingem fazê-lo (ou como as crianças paupérrimas de minha infância a quem se prometia levar para ver os ricos tomarem sorvete”. O futebol seria a política por outros meios.
É claro que Umberto Eco nada entendia de futebol. Talvez por isso tenha tocado no ponto mais importante a ser considerado: o futebol é uma falação interminável. O que se diz por meio do comentário do jogo? Tudo. Nas críticas a Neymar, por exemplo, transparecem visões de mundo que vão da exigência do homem que não pode chorar a um comportamento ilibado que mesmos os críticos dificilmente praticam, passando por uma exploração política escancarada que o transforma em objeto de um ressentimento incontido. Por trás da falação esportiva reverbera uma falação moral, política, psicológica, ideológica. Se luto a cada dia por muito pouco, como posso tolerar que aquele que ganha muito caia em campo e reclame?
Até que ponto Umberto Eco tinha razão? Até que ponto suas intuições se confirmaram? A falação agora tem um amplificador: as redes sociais. Nelas, contudo, não se fala para ativar a chamada função fática, o contato, mas para entrar em guerra com esse outro que diverge. A diferença decepciona. Para o jornalismo a decepção provocada é um selo de qualidade. Ela se chama independência. Umberto Eco deitou falação sobre o futebol. Foi um ato político explícito. Falava por falar. Como todo mundo. A essência do futebol é o que se diz sobre ele.

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