segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Ato político


Num país que se pensava democrático e livre da herança da trapaça institucional, o golpe vai passar. Um golpe, diga-se de passagem, dado à luz do dia, tramado na frente de todo mundo e com gravações que compravam a trama (vide a conversas gravadas e trazidas a público entre Sérgio Machado, Jucá e Renan). Lá está dito em alto e bom som que o único jeito de barrar a Lava Jato era entregar a cabeça da inocente e incorruptível Dilma numa bandeja e jogar toda a culpa no PT.

Ou alguém ainda acha que precisa desenhar? Ou prefere a máxima cínica de que o golpe foi necessário e uma manifestação do bem? Bem de quem?

Nada que surja de um golpe e do assalto ao poder pode ser bom ou carregar alguma virtude. Ao contrário, golpe é sempre sujo e execrável e já que as instituições que deveriam zelar pelo estado democrático de direito promoveram, se associaram ou lavaram as mãos diante do golpe, a história saberá julgar e condenar os golpistas. Todos eles, um a um.

Outros ainda dirão estarem convencidos de que Dilma é inocente e vítima de um golpe, porém seu retorno ao posto de onde nunca deveria ter sido retirada é inviável, pois ela não teria mais condições de governar. Pois bem, isso é algo que me assusta. Afinal, o golpista Temer parece ter poderes de sobra para governar, na medida em que assumiu muitos compromissos e já disse que está disposto a pagar cada centavo da conta do golpe para os golpistas. Leia-se o Congresso mais corrupto da história do país, a alta cúpula do judiciário, a mega imprensa manipuladora, os empresários multinacionais desde sempre exterminadores dos direitos dos trabalhadores, do emprego e do desenvolvimento do Brasil.

Apertem o cinto, guardem as fotografias e lembranças dos bons tempos. A corrupção, corruptos e corruptores estão à solta e o ímpeto de um Brasil mais justo, ético e próspero vai ser coisa do passado ou vai ter que esperar a queda do golpe e dos golpistas, quiçá, nas próximas eleições. É a triste sina de um povo que é feito de palhaço e ainda aplaude e acha graça.


Estamos sendo feitos de palhaços
Por Luís Fernando Veríssimo

Depois da provável cassação da Dilma pelo Senado, ainda falta um ato para que se possa dizer que la commedia è finita: a absolvição do Eduardo Cunha. Nossa situação é como a ópera “Pagliacci”, uma tragicomédia, burlesca e triste ao mesmo tempo. E acaba mal. Há dias li numa pagina interna de um grande jornal de São Paulo que o Temer está recorrendo às mesmas ginásticas fiscais que podem condenar a Dilma. O fato mereceria um destaque maior, nem que fosse só pela ironia, mas não mereceu nem uma chamada na primeira página do próprio jornal e não foi mais mencionado em lugar algum.
A gente admira o justiceiro Sérgio Moro, mas acha perigoso alguém ter tanto poder assim, ainda mais depois da sua espantosa declaração de que provas ilícitas são admissíveis se colhidas de boa-fé, inaugurando uma novidade na nossa jurisprudência, a boa-fé presumida. Mas é brabo ter que ouvir denúncias contra o risco de prepotência dos investigadores da Lava-Jato da boca do ministro do Supremo Gilmar Mendes, o mesmo que ameaçou chamar o então presidente Lula “às falas” por um grampo no seu escritório que nunca existiu, e ficou quase um ano com um importante processo na sua gaveta sem dar satisfação a ninguém. As óperas também costumam ter figuras sombrias que se esgueiram (grande palavra) em cena.
O Eduardo Cunha pode ganhar mais tempo antes de ser julgado, tempo para o corporativismo aflorar, e os parlamentares se darem conta do que estão fazendo, punindo o homem que, afinal, é o herói do impeachment. Foi dele que partiu o processo que está chegando ao seu fim previsível agora. Pela lógica destes dias, depois da cassação da Dilma, o passo seguinte óbvio seria condecorarem o Eduardo Cunha. Manifestantes: às ruas para pedir justiça para Eduardo Cunha!
Contam que um pai levou um filho para ver uma ópera. O garoto não estava entendendo nada, se chateou e perguntou ao pai quando a ópera acabaria. E ouviu do pai uma lição que lhe serviria por toda a vida:
— Só termina quando a gorda cantar.
Nas óperas sempre há uma cantora gorda que só canta uma ária. Enquanto ela não cantar, a ópera não termina.
Não há nenhuma cantora gorda no nosso futuro, leitor. Enquanto ela não chegar, evite olhar-se no espelho e descobrir que, nesta ópera, o palhaço somos nós.

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