quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Liberdade, liberdad; Justiça, justicia!


Quem propugna a volta da ditadura militar realmente não sabe o que diz ou possui uma mente demasiadamente sanguinária.

Por sorte não vivi durante os "anos de chumbo", mas meu sentimento humano e conhecimento da história, me fazem não apenas repudiar, como também armar meu espírito contra qualquer estrutura ou regime que tolha a liberdade.

Vivemos um tempo de tanta liberdade, que a liberdade vem se tornando libertinagem e muitos imaginam que podem tudo, inclusive invocar uma forma de governo que rouba a liberdade, tortura, exila, mutila e mata em nome de nada e de tudo.

Quantas pessoas perderam a vida ou foram impiedosamente violentadas em seus corpos e almas apenas por pensar e querer expressar seu pensamento livremente? Em pensar que nos dias que correm, muitos e muitos abusam desse direito e transformam a liberdade de expressão em verdadeiro atentado ao pudor ou do direito alheio de recusar tudo que tentam lhe enfiar goela abaixo, ainda que disfarçado pelo poder maquiado e manipulador da desinformação ou da propaganda!

Viva a verdadeira liberdade! A liberdade que sabe onde pisa e de onde vem; que não se curva nem invade o espaço íntimo ou particular de outrem e procura cumprir as regras civilizatórias quando transita nos espaços públicos!

Viva Victor Jara, uma das vozes mais belas e brilhantes em defesa da liberdade na América Latina, num tempo em que a liberdade era proibida e "el sangue latino" se juntava para reprimir e matar (vide a operação Condor), e não para somar, "compartir" e se "hermanar" como ora ocorre.

A luta pela liberdade continua viva e necessária, desta feita inclusive contra os excessos e abusos que deixam de ser liberdade e se transformam num mal que os excessos e abusos sempre fazem, o que também é indesejável, condenável e contrário a tudo que é livre e de fato liberta.

Hasta siempre... Victor e todos e todas que tombaram na luta justa e desigual pela liberdade!





quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Licença poética



Peço licença novamente para entregar-lhes novas palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser e inspiradas na minha musa imaginária...


Bendita és tu, que espalhas luz por onde passa.
Luz que ilumina até a lua...

Nem precisas de jardim em casa, já que as flores todas afloram de tua flora.

Felicidade é morrer afogado no mar... no mar do teu amor!

Tua boca é mais doce que o doce.
Teu olhar é a coisa mais linda que há.
Tuas pernas enlaçam e deixam de queixo caído.


Teu cheiro provoca e desperta e preenche por inteiro.
Teu jeito toca e cutuca e cura e aproxima do céu.
Tudo que vem de ti é coberto de calor e acerto.


Teu corpo conforta e atiça meus desejos mais loucos.
Tuas formas são perfeitas e aceleram as batidas do meu coração.
Tua alma enrosca e leva a lugares nunca dantes imaginados.


Busco-te a cada passo e curto em ti cada pedaço...
Teu mel, teu porto, teu colo, teu puxão de orelha, teu amparo nas horas adversas e nas urgências de estar vivo.


Se bem que ver teu rosto é tudo que me resta e mais do que preciso para estar no mundo e bem viver!


segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Pitada filosófica




Nem só de pão viverá o homem



Pensar é preciso


Em meio a tantos pré-julgamentos,  hipocrisia e tentativas de golpe, eis que surge uma manifestação sóbria, sensata e oportuna. Uma manifestação que não poupa ninguém nem joga todos no mesmo saco. Uma manifestação que coloca a corrupção na Petrobras dentro de uma dimensão histórica e mais ampla e enxerga uma luz imensa no combate que ora ocorre a tais desvios e malfeitos. Uma manifestação que não parte de um petista ou de algum prócer do governo, e sim de um respeitado empresário tucano.

Nem tudo está perdido nesses tempos de insensatez, rancor e golpes baixos...


Nunca se roubou tão pouco
Por Ricardo Semler

Nossa empresa deixou de vender equipamentos para a Petrobras nos anos 70. Era impossível vender diretamente sem propina. Tentamos de novo nos anos 80, 90 e até recentemente. Em 40 anos de persistentes tentativas, nada feito.
Não há no mundo dos negócios quem não saiba disso. Nem qualquer um dos 86 mil honrados funcionários que nada ganham com a bandalheira da cúpula.
Os porcentuais caíram, foi só isso que mudou. Até em Paris sabia-se dos “cochons des dix pour cent'', os porquinhos que cobravam 10% por fora sobre a totalidade de importação de barris de petróleo em décadas passadas.
Agora tem gente fazendo passeata pela volta dos militares ao poder e uma elite escandalizada com os desvios na Petrobras. Santa hipocrisia. Onde estavam os envergonhados do país nas décadas em que houve evasão de R$ 1 trilhão –cem vezes mais do que o caso Petrobras– pelos empresários?
Virou moda fugir disso tudo para Miami, mas é justamente a turma de Miami que compra lá com dinheiro sonegado daqui. Que fingimento é esse?
Vejo as pessoas vociferarem contra os nordestinos que garantiram a vitória da presidente Dilma Rousseff. Garantir renda para quem sempre foi preterido no desenvolvimento deveria ser motivo de princípio e de orgulho para um bom brasileiro. Tanto faz o partido.
Não sendo petista, e sim tucano, com ficha orgulhosamente assinada por Franco Montoro, Mário Covas, José Serra e FHC, sinto-me à vontade para constatar que essa onda de prisões de executivos é um passo histórico para este país.
É ingênuo quem acha que poderia ter acontecido com qualquer presidente. Com bandalheiras vastamente maiores, nunca a Polícia Federal teria tido autonomia para prender corruptos cujos tentáculos levam ao próprio governo.
Votei pelo fim de um longo ciclo do PT, porque Dilma e o partido dela enfiaram os pés pelas mãos em termos de postura, aceite do sistema corrupto e políticas econômicas.
Mas Dilma agora lidera a todos nós, e preside o país num momento de muito orgulho e esperança. Deixemos de ser hipócritas e reconheçamos que estamos a andar à frente, e velozmente, neste quesito.
A coisa não para na Petrobras. Há dezenas de outras estatais com esqueletos parecidos no armário. É raro ganhar uma concessão ou construir uma estrada sem os tentáculos sórdidos das empresas bandidas.
O que muitos não sabem é que é igualmente difícil vender para muitas montadoras e incontáveis multinacionais sem antes dar propina para o diretor de compras.
É lógico que a defesa desses executivos presos vão entrar novamente com habeas corpus, vários deles serão soltos, mas o susto e o passo à frente está dado. Daqui não se volta atrás como país.
A turma global que monitora a corrupção estima que 0,8% do PIB brasileiro é roubado. Esse número já foi de 3,1%, e estimam ter sido na casa de 5% há poucas décadas. O roubo está caindo, mas como a represa da Cantareira, em São Paulo, está a desnudar o volume barrento.
Boa parte sempre foi gasta com os partidos que se alugam por dinheiro vivo, e votos que são comprados no Congresso há décadas. E são os grandes partidos que os brasileiros reconduzem desde sempre.
Cada um de nós tem um dedão na lama. Afinal, quem de nós não aceitou um pagamento sem recibo para médico, deu uma cervejinha para um guarda ou passou escritura de casa por um valor menor?
Deixemos de cinismo. O antídoto contra esse veneno sistêmico é homeopático. Deixemos instalar o processo de cura, que é do país, e não de um partido.
O lodo desse veneno pode ser diluído, sim, com muita determinação e serenidade, e sem arroubos de vergonha ou repugnância cínicas. Não sejamos o volume morto, não permitamos que o barro triunfe novamente. Ninguém precisa ser alertado, cada de nós sabe o que precisa fazer em vez de resmungar.


RICARDO SEMLER, 55, empresário, é sócio da Semco Partners. Foi professor visitante da Harvard Law School e professor de MBA no MIT – Instituto de Tecnologia de Massachusetts (EUA)

sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Altas conexões




Momento poético



Uso a palavra para compor meus silêncios.
Não uso das palavras
Fatigadas de informar.
Dou mais respeito
Às que vivem de barriga no chão
Tipo água pedra sapo.
Entendo bem o sotaque das águas.
Dou importância às coisas desimportantes
E aos seres desimportantes
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade
das tartarugas mais do que as dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença
Eu fui aparelhado
para gostar de passarinhos
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Sou um apanhador de desperdícios
Amo os restos
Como boas moscas.
Queria que minha voz tivesse formato de canto
Porque não sou da informática
Eu sou da invencionática.
Só uso minhas palavras para compor meus silêncios.

Manoel de Barros, do livro "Memórias inventadas – As Infâncias", São Paulo: Planeta do Brasil, 2010. p. 47.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Rir é o melhor remédio




Música para os meus ouvidos


Estava catando uma canção calma e cortante, sem o apelo de uma prece ou carente de muitas elucubrações. Uma canção que canta por si só, e só! Foi então que a voz marcante de Osvaldo Montenegro me tocou, caiu como uma luva e encharcou meu terreno baldio como a chuva encharca...



  


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Autorretrato


"Yo", mirando o Palácio do Planalto

Ato político


A efetiva democratização do Brasil ainda está longe de ser fato consumado. Da mesma forma que ninguém é amoroso apenas por dizer que é amoroso nada nem ninguém é democrata apenas por se dizer democrata. Afinal, a vida vai muito além das palavras e o que fica e vale são os gestos. A vida também vai muito além das questões individuais ou isoladas. Ou seja, a democracia só será fática e efetiva quando se enraizar em todas as instituições públicas e privadas do país e verter do âmago das nossas práticas pessoais de cada dia.

Avançamos muito na democratização do país desde o término da Ditadura Militar, porém as mentes e estruturas antidemocráticas ainda são muitas e bastante robustas, de norte a sul desse imenso Brasil. São muitas, robustas e travestidas de democráticas porque o mal nunca se apresenta com cara feia para não assustar ou perder o domínio sobre as pessoas. São muitas, robustas e as forças verdadeiramente democráticas precisam dar-lhes um combate cada vez mais sem tréguas, para o bem de todos nós e em nome da própria democracia. Esse é o recado e o chamamento de Emir Sader no escrito que ora compartilho.


Quem é democrata hoje no Brasil?

Por Emir Sader


As disputas políticas tem frequentemente girado em torno da disputa da democracia. Uma e outra força política pretende apropriar-se da palavra democracia e caracterizar seu oponente como não democrata.

Mas quem realmente é democrata hoje no Brasil e quem não o é?

O Brasil foi sempre caracterizado como o país mais desigual do continente mais desigual. Não o mais rico, nem o mais pobre, mas aquele cuja desproporção entre ricos e pobres era a maior. Não era, portanto, um país socialmente democrático embora, pelos cânones liberais, era considerado uma democracia: divisão dos poderes do Estado, eleições periódicas, pluralismo partidário, imprensa livre (atenção: livre quer dizer privada, para o liberalismo).

Não poderia ser democrático, porque não o era para a grande maioria. Foram os governos do PT que ampliaram enormemente a inclusão social e, portanto, a democracia no Brasil. Mas esse processo se choca com estruturas de poder a que a democratização não chegou.

A democratização obedeceu aos cânones liberais apontados acima. Mas não chegou às estruturas profundas do poder no Brasil. Não chegou ao sistema bancário, à propriedade da terra, às grandes corporações industriais e comerciais, não chegou aos meios de comunicação. Ao contrário, em vários aspectos essas estruturas de poder se consolidaram como grandes monopólios, ao invés de ser democratizadas, de forma paralela às estruturas politicas e institucionais.

Os governos Lula e Dilma dão continuidade ao processo de democratização, estendendo-a ao plano social, desenvolvendo processos de inclusão e de cidadania para a grande maioria. E se chocam com aquelas estruturas não democráticas de poder na sociedade.

O processo eleitoral recém concluído viu, por um lado, um apoio majoritário às políticas sociais que deram início ao mais importante processo de democratização social do Brasil, por outro, o controle da formação da opinião pública por parte da direita, apoiada no controle monopolista dos meios de comunicação.

Quem é democrata hoje no Brasil? Quem estende direitos elementares, sempre negados, à grande maioria da população? Ou quem considera que a economia não cresce porque o salário mínimo seria alto? Quem luta pela democratização dos meios de comunicação ou quem detêm o seu monopólio e faz uso partidário e discricionário dele? Quem propõem o fim do poder do dinheiro sobre as campanhas eleitorais? Ou quem elege bancadas de lobbies baseados nos financiamentos empresariais, para defender seus interesses?

Quem fortalece os bancos públicos para desenvolver políticas sociais? Ou quem se vale dos bancos privados para a especulação financeira? Quem faz chegar atenção médica a dezenas de milhões de brasileiros, que nunca puderam gozar dela? Ou quem se opõe a isso, bem como à abertura de novas vagas nos cursos de medicina das universidades públicas?

Quem quer que as decisões do governo se baseiem em consultas à população? Ou quem quer seguir monopolizando as instâncias de decisão parlamentar, baseados na negociata de cargos e favores? Quem quer um país para todos? Ou quem quer voltar ao país governado só para uma parcela da população?

A campanha, mais além dos enfrentamentos imediatos, faz parte de uma imensa luta para democratizar o Brasil. Que tem agora na democratização dos meios de comunicação e na reforma política, suas próximas batalhas.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Pitada filosófica




Nem só de pão viverá o homem




Trator adquirido para patrulha agrícola da prefeitura é liberado




Mais um importante reforço para a uma patrulha agrícola da Secretaria Municipal de Agropecuária. Na manhã desta sexta-feira (14), membros da equipe da Secretaria de Planejamento e o secretário adjunto de Agropecuária, Deomar Schafer, acompanharam a vistoria da Caixa Econômica Federal no trator adquirido pela prefeitura há alguns meses com recursos oriundos de emenda do deputado federal Dionilso Marcon (PT) mais contrapartida financeira da administração municipal. O valor total do investimento é de R$ 114.970,00 contando o valor do repasse e a contrapartida.

Após a vistoria, cuja demora se deveu aos impedimentos próprios do último período eleitoral, o trator está liberado para uso, num momento que a patrulha agrícola tanto precisa desse reforço para atender mais produtores e em melhores condições.

Segundo o secretário de Planejamento, Toninho Veleda, "a administração comandada pelo prefeito Ildo Sallaberry não para e traduz seu compromisso com o avanço do município com cada vez mais ações concretas".

Ainda de acordo com o Secretário, "além de fazer, o governo cumpre a risca as determinações legais e os trâmites burocráticos exigidos quando se trata da aplicação dos recursos públicos, algo que demonstra também a disposição de atender às demandas da população da forma correta em termos administrativos. Ou seja, mesmo que as coisas não aconteçam na velocidade que as pessoas esperam, o importante é que todos podem ter certeza que trabalhamos para realizar os investimentos do jeito certo para não gerar problemas futuros tanto para a prefeitura quanto para os beneficiários dos investimentos da administração pública", defendeu.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Rir é o melhor remédio




Prefeito encaminha projeto à Câmara sobre novo IPTU



Na manhã desta segunda-feira (10), durante reunião no gabinete do prefeito de Herval, Ildo Sallaberry, o assunto em pauta foi o encaminhamento à Câmara de Vereadores do projeto de lei que trata sobre a regularização e atualização do cadastro imobiliário do município, assim como a atualização da Planta Genérica de Valores e recadastramento de imóveis. Na oportunidade a maioria dos vereadores esteve presente, assim como os secretários do governo municipal, quando o prefeito solicitou agilidade na votação, para que o mesmo ainda seja implantado este ano.

Foi explanado durante a reunião, pelo diretor da empresa Fabrício Vergara, da Safra Planejamento, que para não gerar impacto na comunidade, o aumento do Imposto sobre Propriedade Predial e Territorial - IPTU será feito, porém com um redutor social de R$ 10 mil referente à avaliação dos imóveis. Para melhor entendimento, um imóvel avaliado em R$ 40 mil, terá a cobrança do IPTU calculado em R$ 30 mil. “Esta medida serve para desestimular a especulação imobiliária e tornar o IPTU mais justo, visto o valor do mesmo hoje ser muito baixo”, explica Fabrício.

“Iremos implantar uma alíquota de 0,5% para imóveis prediais e 1% para terrenos, e a partir daí fazer o novo cálculo do IPTU referente às áreas das propriedades”, destaca o secretário da Fazenda Luis Antônio Saraiva.

Conforme Sallaberry o cadastro imobiliário de Herval estava totalmente desatualizado, sendo feita a última modificação há 13 anos. “Devido a esta desatualização o município estava perdendo na arrecadação do IPTU, fato já havia sido apontado pelo Tribunal de Contas em 2012”, informou o prefeito.

De acordo com o diretor da Safra, os municípios que não readequarem seus impostos não terão direito a receber recursos do Governo Federal. “Devido a isso, os municípios deverão investir no planejamento com projetos bem elaborados para não serem apontados pelo Tribunal de Contas”, ressalta Vergara.


Texto: jornalista Nívia Bilhalva de Oliveira
Publicado originalmente no site da prefeitura: www.herval.rs.gov.br

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Parada pedagógica




Música para os meus ouvidos



Maria Conceição não aparece na televisão. Sua voz provavelmente nunca será atração no Domingão do Faustão. Mas isso não diminui nem rouba em nada o brilho dessa cantora extraordinária, acredito até que amplifique o talento dessa mulher que encanta quando canta.

Maria Conceição não precisa de maquiagens em excesso, holofotes com foco falso, overdoses de propaganda, truques ou tagarelices midiáticos.

Maria Conceição tem um talento nato e cuidadosamente lapidado. Ela canta, levanta e faz levitar. Ao final de cada canção interpretada por Conceição o coração palpita e dá vontade de bradar: “bravo! bravíssimo!”

E quanto canta a poesia ferina e fenomenal de Basílio Conceição, então... Maria Conceição faz abrir um céu no chão do sul e de todo esse mundão!

Há quem diga que Maria Conceição é um anjo que escapou do coral do céu, apenas para nos brindar com sua voz que leva a alma nas nuvens!



quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Licença poética



Volto a pedir licença para compartilhar novas palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser...


Quando morrer não quero choro, coroas, velório nem caixão.
Quero ser cremado e minhas cinzas jogadas ao vento,
no rodapé da página escrita por uma criança ou ao pé de
uma planta – de preferência uma flor.

Quando minha alma se for desse corpo que ora me envolve e consome, quero risos e cantorias.

Cantem e dancem Cartola, Ana Carolina, Caetano, Chico Buarque,
Sambô, Lenine, Diogo Nogueira, Gessinger, Nei Lisboa, Paulinho da Viola,
Zeca Pagodinho, Basílio Conceição, Chico César, Ramil, Violeta Parra...

Cantem e dancem tudo que tenha poesia, embale o corpo e acaricie a alma,
menos essas porras de mau gosto que fazem-nos engolir como música.

Antes da cremação, peço que se reúnam todos em torno dos meus restos mortais dando corpo a um descontraído recital, com direito a palavras molhadas por goles de um bom vinho, uma cachaça curtida pelo paladar do povo ou uma saborosa cerveja artesanal.

Peço que recitem Quintana, Drummond, Andrade, Pessoa, 
Espanca, Carpi, Neruda, H. Dubal, Cecília Meireles, Mario de Sá Carneiro....

Ao final, recitem um poema meu.

Um poema cortante como minha carne.
Um poema profundo e simples como tenho tentado ser
desde que abri os olhos na imensidão desse mundo.

Aliás, antes do ato de cremação, suplico pela doação dos órgãos do meu corpo, especialmente o coração e minhas córneas.

Afinal, meu coração nunca logrará experimentar todos os sentimentos ou reveses do mundo, sendo de bom tom que ele siga palpitando em outro peito.

De outra parte, não conseguirei ver com meus próprios olhos tudo que há ou se sucede no mundo, ao passo que minhas córneas conquistaram perante a injustiça comum a todos que habitam nosso planeta o direito de continuar vendo depois da minha partida, ainda que seja sob outros olhares.   

Ao final, recitem meu melhor poema.

Um poema que fale de mim e de todos os seres viventes,
de afetos e aflições, de amores vividos, perdidos ou inventados,
de Deus, da vida ou coisa parecida, da própria poesia.

Recitem e recebam um poema meu como quem recebe um abraço.
Não podendo abraçar meu corpo, façam desse gesto um abraço em minha alma aflita pelo que ficará para trás e pelas portas, pontes e poemas
que terá que descortinar na viagem rumo ao infinito.

Infinito como cada ser, a dor de uma partida, a luz de cada dia,
uma canção que toca por dentro e levanta o astral ou a leveza enlutada da poesia!

Pitada filosófica




Música para os meus ouvidos



Samba é um ritmo que faz balançar minha alma. Com muito orgulho, tenho dois ou três pés na África, já que sou descendente de negros, especialmente por parte de pai. E menciono tal fato, pois o samba chegou ao Brasil com o nome de "semba", trazido na imensa bagagem cultural do povo Africano que veio ao nosso país à força para trabalhar na condição de escravos e engordar o bolso dos senhores donos de vastidões de terras que se arvoraram de donos de multidões de vidas.

Mas não é apenas uma questão de sangue. É que o samba corre pelo espírito e faz o corpo balançar a qualquer hora ou circunstância, mesmo quando não temos coragem, talento ou remelexo para arriscar um só passo. Como diz a letra, "quem não gosta de samba bom sujeito não é/ É ruim da cabeça ou doente do pé"! 

E na voz da Leci Brandão, então, todo samba cativa o coração, convida a soltar a voz e embala o corpo até o corpo acordar nas asas da boa música...




terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ato político



Sou fã incondicional de Luís Fernando Veríssimo. Um cara de gosto refinado que nunca se tornou esnobe nem fechou os olhos para a falta de fineza, para as pérolas que enfeitam porcos ou para os "puro-sangue puxando carroças", como canta o grande Gessinger.

O humor de Veríssimo é algo que impressiona e convida ao riso sincero e solto. Ao contrário do humor sem graça, apelativo e forçado promovido pelos programas humorísticos da grande mídia, o humor de Veríssimo é algo gostoso, espontâneo e belo. Belo, porque para mim, humor é uma arte e rir de si mesmo, mais que delírio ou descaso com o acerto, é um dever de ofício e, às vezes, terapia.

Mas Veríssimo se destaca e merece ser citado também quando o causo é "sério". Veríssimo sempre teve lado e foi antenado nas configurações sociais que influenciam as condições de vida em termos de grana ou civilizatórias dos indivíduos.

Veríssimo é um cidadão do nosso planeta que conhece muito bem o Rio Grande do Sul, o Brasil e o mundo. Por isso mesmo, ele sabe que os avanços alcançados pelo nosso país nos últimos anos não caíram do céu, não são obra do tempo nem representam pouca coisa e que após a hecatombe neoliberal o mundo e a humanidade se encontram diante de uma encruzilhada no âmbito político.

Veríssimo sabe ainda que muitas das políticas públicas tratadas com desdém, menosprezo ou revolta por aqui são exatamente o remédio que muitos países buscam atualmente para suas feridas, mazelas e chagas abertas pelo salve-se quem souber imposto sem pudor ou piedade pelos súditos do "deus mercado".

É com o propósito de convidá-los a observar a vida além do próprio umbigo ou os problemas para bem mais adiante dos limites do nosso país que compartilho essa reflexão lúcida, do sempre oportuno e iluminado Luís Fernando Veríssimo.


PÓS-FUKUYAMA,
Por Luís Fernando Veríssimo


O capital financeiro predatório mantém seu poder de ditar a moral e os costumes da época, mas não tem mais a certeza de um futuro só dele.

Francis Fukuyama (lembra dele?) decretou o fim da História com a vitória definitiva das forças do mercado contra o dirigismo econômico. A sua foi uma das frases mais bem-sucedidas do século passado. O Muro de Berlim caíra em cima do que restava das ilusões socialistas, a frase não tinha resposta e o capitalismo desregulado não tinha mais inimigos. Dominaria o planeta e nossas vidas pelos próximos milênios.

Como o próprio Fukuyama reconheceu mais tarde numa revisão da sua sentença, a História reagiu. O capital financeiro predatório mantém seu poder de ditar a moral e os costumes da época, mas não não tem mais a certeza de um futuro só dele nem a bênção da filosofia sintética e incontestável do Confúcio da direita. Se pela História tornada irrelevante Fukuyama queria dizer contradição e conflito, tudo o que aconteceu no mundo depois da publicação do seu livro desmentiu sua premissa. Mostrou que a História está viva, forte e irritadíssima. Nenhuma senhora, ainda mais com sua biografia, gosta de ser declarada inválida antes do tempo.

A crise provocada pelo capital financeiro fora de controle levou protestantes para as ruas na Europa e nos Estados Unidos e transformou “austeridade”, a solução receitada para as vítimas da crise, em palavrão. Ninguém quer pagar, com o sacrifício de gastos sociais, por uma porcaria que não fez. E cresce a busca por alternativas para os dogmas neoliberais e pelo fim do monólogo dos donos do dinheiro.

E o papel da esquerda na História pós-Fukuyama? O socialismo está numa crise de identidade. Como é difícil, hoje, recuperar o sentido antigo, sem qualificativos, de uma opção pelo socialismo, as pessoas se entregam à autorrotulagem para se definirem exatamente, (sou dois quartos de esquerda-esquerda, um quarto de centro-esquerda e o outro quarto deve ser gases), o que só atrasa as discussões que interessam. Quais são os limites da coerência ideológica e do pragmatismo? O que ainda pode ser resgatado das ilusões perdidas? Por que não se declarar logo um neo-neoliberal e ser feliz?

Num livro recém-publicado, a ex-mulher de François Hollande revela que ele tem horror a pobre. Se pode sobreviver a Francis Fukuyama, a François Hollande e a partidos políticos brasileiros que se chamam de “socialistas” com uma certa imprecisão semântica, o socialismo ainda tem um futuro, mesmo que seja apenas um apelido conveniente para o que se quer. A escolha continua sendo entre socialismo e barbárie. Pode-se não saber mais o que é socialismo, mas para saber o que é barbárie basta abrir os olhos.

Momento poético




Ausência

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada
nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.


Carlos Drummond de Andrade