quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Licença poética



Volto a pedir licença para compartilhar novas palavras simples e sutis, arrancadas do fundo do baú do meu ser...


Quando morrer não quero choro, coroas, velório nem caixão.
Quero ser cremado e minhas cinzas jogadas ao vento,
no rodapé da página escrita por uma criança ou ao pé de
uma planta – de preferência uma flor.

Quando minha alma se for desse corpo que ora me envolve e consome, quero risos e cantorias.

Cantem e dancem Cartola, Ana Carolina, Caetano, Chico Buarque,
Sambô, Lenine, Diogo Nogueira, Gessinger, Nei Lisboa, Paulinho da Viola,
Zeca Pagodinho, Basílio Conceição, Chico César, Ramil, Violeta Parra...

Cantem e dancem tudo que tenha poesia, embale o corpo e acaricie a alma,
menos essas porras de mau gosto que fazem-nos engolir como música.

Antes da cremação, peço que se reúnam todos em torno dos meus restos mortais dando corpo a um descontraído recital, com direito a palavras molhadas por goles de um bom vinho, uma cachaça curtida pelo paladar do povo ou uma saborosa cerveja artesanal.

Peço que recitem Quintana, Drummond, Andrade, Pessoa, 
Espanca, Carpi, Neruda, H. Dubal, Cecília Meireles, Mario de Sá Carneiro....

Ao final, recitem um poema meu.

Um poema cortante como minha carne.
Um poema profundo e simples como tenho tentado ser
desde que abri os olhos na imensidão desse mundo.

Aliás, antes do ato de cremação, suplico pela doação dos órgãos do meu corpo, especialmente o coração e minhas córneas.

Afinal, meu coração nunca logrará experimentar todos os sentimentos ou reveses do mundo, sendo de bom tom que ele siga palpitando em outro peito.

De outra parte, não conseguirei ver com meus próprios olhos tudo que há ou se sucede no mundo, ao passo que minhas córneas conquistaram perante a injustiça comum a todos que habitam nosso planeta o direito de continuar vendo depois da minha partida, ainda que seja sob outros olhares.   

Ao final, recitem meu melhor poema.

Um poema que fale de mim e de todos os seres viventes,
de afetos e aflições, de amores vividos, perdidos ou inventados,
de Deus, da vida ou coisa parecida, da própria poesia.

Recitem e recebam um poema meu como quem recebe um abraço.
Não podendo abraçar meu corpo, façam desse gesto um abraço em minha alma aflita pelo que ficará para trás e pelas portas, pontes e poemas
que terá que descortinar na viagem rumo ao infinito.

Infinito como cada ser, a dor de uma partida, a luz de cada dia,
uma canção que toca por dentro e levanta o astral ou a leveza enlutada da poesia!

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