terça-feira, 4 de novembro de 2014

Ato político



Sou fã incondicional de Luís Fernando Veríssimo. Um cara de gosto refinado que nunca se tornou esnobe nem fechou os olhos para a falta de fineza, para as pérolas que enfeitam porcos ou para os "puro-sangue puxando carroças", como canta o grande Gessinger.

O humor de Veríssimo é algo que impressiona e convida ao riso sincero e solto. Ao contrário do humor sem graça, apelativo e forçado promovido pelos programas humorísticos da grande mídia, o humor de Veríssimo é algo gostoso, espontâneo e belo. Belo, porque para mim, humor é uma arte e rir de si mesmo, mais que delírio ou descaso com o acerto, é um dever de ofício e, às vezes, terapia.

Mas Veríssimo se destaca e merece ser citado também quando o causo é "sério". Veríssimo sempre teve lado e foi antenado nas configurações sociais que influenciam as condições de vida em termos de grana ou civilizatórias dos indivíduos.

Veríssimo é um cidadão do nosso planeta que conhece muito bem o Rio Grande do Sul, o Brasil e o mundo. Por isso mesmo, ele sabe que os avanços alcançados pelo nosso país nos últimos anos não caíram do céu, não são obra do tempo nem representam pouca coisa e que após a hecatombe neoliberal o mundo e a humanidade se encontram diante de uma encruzilhada no âmbito político.

Veríssimo sabe ainda que muitas das políticas públicas tratadas com desdém, menosprezo ou revolta por aqui são exatamente o remédio que muitos países buscam atualmente para suas feridas, mazelas e chagas abertas pelo salve-se quem souber imposto sem pudor ou piedade pelos súditos do "deus mercado".

É com o propósito de convidá-los a observar a vida além do próprio umbigo ou os problemas para bem mais adiante dos limites do nosso país que compartilho essa reflexão lúcida, do sempre oportuno e iluminado Luís Fernando Veríssimo.


PÓS-FUKUYAMA,
Por Luís Fernando Veríssimo


O capital financeiro predatório mantém seu poder de ditar a moral e os costumes da época, mas não tem mais a certeza de um futuro só dele.

Francis Fukuyama (lembra dele?) decretou o fim da História com a vitória definitiva das forças do mercado contra o dirigismo econômico. A sua foi uma das frases mais bem-sucedidas do século passado. O Muro de Berlim caíra em cima do que restava das ilusões socialistas, a frase não tinha resposta e o capitalismo desregulado não tinha mais inimigos. Dominaria o planeta e nossas vidas pelos próximos milênios.

Como o próprio Fukuyama reconheceu mais tarde numa revisão da sua sentença, a História reagiu. O capital financeiro predatório mantém seu poder de ditar a moral e os costumes da época, mas não não tem mais a certeza de um futuro só dele nem a bênção da filosofia sintética e incontestável do Confúcio da direita. Se pela História tornada irrelevante Fukuyama queria dizer contradição e conflito, tudo o que aconteceu no mundo depois da publicação do seu livro desmentiu sua premissa. Mostrou que a História está viva, forte e irritadíssima. Nenhuma senhora, ainda mais com sua biografia, gosta de ser declarada inválida antes do tempo.

A crise provocada pelo capital financeiro fora de controle levou protestantes para as ruas na Europa e nos Estados Unidos e transformou “austeridade”, a solução receitada para as vítimas da crise, em palavrão. Ninguém quer pagar, com o sacrifício de gastos sociais, por uma porcaria que não fez. E cresce a busca por alternativas para os dogmas neoliberais e pelo fim do monólogo dos donos do dinheiro.

E o papel da esquerda na História pós-Fukuyama? O socialismo está numa crise de identidade. Como é difícil, hoje, recuperar o sentido antigo, sem qualificativos, de uma opção pelo socialismo, as pessoas se entregam à autorrotulagem para se definirem exatamente, (sou dois quartos de esquerda-esquerda, um quarto de centro-esquerda e o outro quarto deve ser gases), o que só atrasa as discussões que interessam. Quais são os limites da coerência ideológica e do pragmatismo? O que ainda pode ser resgatado das ilusões perdidas? Por que não se declarar logo um neo-neoliberal e ser feliz?

Num livro recém-publicado, a ex-mulher de François Hollande revela que ele tem horror a pobre. Se pode sobreviver a Francis Fukuyama, a François Hollande e a partidos políticos brasileiros que se chamam de “socialistas” com uma certa imprecisão semântica, o socialismo ainda tem um futuro, mesmo que seja apenas um apelido conveniente para o que se quer. A escolha continua sendo entre socialismo e barbárie. Pode-se não saber mais o que é socialismo, mas para saber o que é barbárie basta abrir os olhos.

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