terça-feira, 17 de maio de 2016

Ato político


Quando Olívio Dutra governou o RS parece que o resto do mundo tinha acabado. Todo o noticiário político tinha teor e foco quase que exclusivamente nos fatos e boatos relativos ao nosso estado. Qualquer problema ocorrido em qualquer cidade gaúcha a culpa era, inapelavelmente, do governo petista. Nada a ver com a eventual ineficácia dos gestores locais ou com a total falta de apoio e de investimentos nos municípios por parte da União. Não, era todo muito óbvio, maquiado ou manipulado mesmo.

Naquele mesmo tempo, o então governo FHC em curso no país era blindado de todos os modos e lados para parecer que era o máximo e qualquer coisa que fugisse a esse script não era culpa das ações ou omissões do governo central, e sim consequência de "fatores externos ou do propalado atraso do nosso povo". Assim, o apagão elétrico que vivíamos não era fruto da falta de investimento dos tucanos nesse setor vital e estratégico (algo que "coincidentemente" se repete agora com o abastecimento de água da população em São Paulo), e sim obra de algum cachorro que urinou num poste lá na China, vindo a atingir o fornecimento de energia elétrica aqui no Brasil.

Bastou Olívio deixar o Palácio Piratini e Lula subir a rampa do Planalto para as empresas de comunicação mudarem o tom e o foco. O recém empossado governo Rigotto simplesmente deixou de ser notícia. Em contrapartida, todos os holofotes, manchetes e canhões midiáticos se voltaram para Brasília. Lembro que foi naquela época que a poderosa RBS instalou uma sucursal na capital federal, comandada pela hoje senadora golpista Ana Amélia Lemos, seguindo a tendência então instaurada de abafar o caso por aqui e jogar toda a carga no colo do governo federal então empossado. 

Algo semelhante ao que vem ocorrendo no presente momento e deverá se intensificar com mais força a partir da derrubada de Dilma, só que desta feita unificando a narrativa política estadual e federal. Antes mesmo de assumir, Sartori vem sendo blindado pela mídia que mais parece um órgão de comunicação do próprio governo, longe de cumprir o papel constitucional reservado à imprensa de levar informações às pessoas, contrapondo pontos de vista diferentes e divergentes. 

Até aqui Dilma era a culpada pelos efeitos em nosso país de uma crise que é mundial, começou em 2008 e antes de chegar ao Brasil derrubou a economia dos países mais importantes do mundo. De agora em diante não, como já deu o recado Temer, não se fala mais em crise ou quando se falar dela se dirá, finalmente, que ela é o efeito da maior crise do capitalismo mundial de todos os tempos ou então que é fruto de uma herança maldita deixada por Dilma. Simples assim.

Por isso, é tão importante ficar atento. Atento aos desdobramentos políticos de Brasília. Atento igualmente às escolhas do governo Sartori que vem colocando o RS tão pra baixo, depois de um início de recuperação com Tarso e o governo da Unidade Popular Pelo Rio Grande. Falemos das coisas de lá, mas falemos de Sartori, como bem lembra e recomenda Marcelo Danéris, para que nossa opinião não se restrinja apenas repetir o discurso oficial que, não por acaso, coincide desde sempre com o discurso e a narrativa da grande imprensa:


Precisamos falar sobre Sartori

Marcelo Danéris (*)

No transe da crise nacional talvez você tenha esquecido algo importante: Sartori está governando o estado do Rio Grande do Sul. O então candidato sem programa e sem partido, que fazia piadas sobre professores procurando piso na Tumelero e citações filosóficas dosSimpsons, habita o Palácio Piratini há um ano e meio.

Logo após eleito, Sartori declarou, com a peculiar profundidade: “a ficha ainda não caiu” e “vamos fazer o que é preciso”. Desde lá a ficha caiu, e ele faz o que é preciso, para quem não precisa. O ilusionismo político começa com a imagem obtusa que se deixa mostrar em público. Como um professor de filosofia, ex-vereador, ex-deputado estadual por cinco mandatos, ex-deputado federal, ex-secretário no governo Pedro Simon e prefeito por oito anos, seria tão desconexo? Ilusão! Com a engendrada aparência de desorientação, Sartori age nas sombras da crise e na ausência de compromissos de campanha.

Do “Meu Partido é o Rio Grande” não se teve mais notícias. Mas seu partido, o PMDB, levou onze secretarias, sete fundações, quatro empresas públicas, um banco, e mais de 60% dos cargos em comissão. O restante foi dividido por um condomínio de 10 partidos aliados.

Nos primeiros dias de Palácio, ao ajeitar o quadro de Antônio Britto na parede, Sartori se viu refletido. Com a mesma intensidade do ex-governador, nutre pelo Estado o idêntico desejo de vê-lo mínimo. Atrasa e parcela salários dos servidores, pedala o pagamento de fornecedores, aumenta impostos, reduz recursos da educação, descumpre os 12% da saúde, abandona programas sociais e convênios com prefeituras, paralisa obras e manutenção de estradas, sucateia órgãos estaduais (EGR, Fepam, CEEE, Emater), limita o crédito, interrompe concursos. Um duro ajuste fiscal, para os outros, diga-se.

Do roteiro pré-estabelecido, acordado com poucos e omitido da maioria, Sartori errou a estratégia da dívida do estado com a União: não aproveitou o espaço fiscal da reestruturação da dívida – algo em torno de dois bilhões de reais –, e ainda assiste suas ações judiciais serem pedaladas pelo Supremo Tribunal Federal. Restou raspar a conta dos depósitos judiciais, que jurou não mexer!

Ao melhor estilo nonsense político, sugeriu aos servidores com salários atrasados “dar graças a Deus que têm estabilidade”, e dançou alegremente na Expointer um dia antes de anunciar novo parcelamento salarial. Questionado sobre a crise do estado, leu frase de Albert Einstein sem citar o autor. Comédia e tragédia de um governo. Assim como Dilma, Sartori “pedalou”, tem baixa popularidade e a economia está em crise. Nem por isso ruborizou ao justificar, em vídeo, a votação do impeachment da presidenta pela Câmara dos Deputados: “a paciência dos brasileiros passou do limite”. No despudor, esqueceu-se dos gaúchos, e demonstrou uma paciência ilimitada com o correligionário Eduardo Cunha – antes, durante e depois da queda.

O Rio Grande sofre uma crise sem precedentes na segurança pública, caiu de 4º para o 6º lugar nas exportações, tem a pior taxa de desemprego desde a crise internacional de 2008, perdeu recursos dos programas federais e a infraestrutura recuou aos patamares dos anos 80. Com o estado paralisado, Sartori recorreu à velha malinha de papelão que mostrava nos programas eleitorais para, de lá, retirar a nova com a qual pretende salvar seu governo: vender patrimônio público e entregar as estradas à iniciativa privada. A fórmula mágica, tentada por Britto há mais de vinte anos, tem resultados bem conhecidos.

A população, ao abandono, assiste a tudo trancada em casa, com medo da violência, salários atrasados, serviços precários, estradas ruins, e quase sem ter a quem recorrer. Colunistas e jornais, antes implacáveis críticos, silenciam. Não há enigma: Sartori materializa aqui o mesmo projeto que desejam ver aplicado ao país. Das sacadas gourmet espera-se, em vão, o bater das panelas. A indignação é seletiva. Dos empresários, fiéis vigilantes do bolso, tão pouco. Adormece em algum lugar seguro, longe do impostômetro, a revolta com o aumento do ICMS.

Pode até não parecer, mas o governador e seus apoiadores, no embalo da crise nacional, já sonham com a reeleição como prêmio por cumprir o “dever de casa”. Não é mais possível adiar: precisamos falar sobre Sartori.

(*) Cientista Político, ex-secretário do estado.


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