quinta-feira, 6 de julho de 2017

Ato político


Como ensina o grande Humberto Gessinger, ao contrário de outras épocas, o problema maior do nosso tempo não é o silêncio, e sim o excesso de fala. É todos opinando sobre tudo ao mesmo tempo, como se grandes entendedores ou estudiosos de diferentes assuntos fossem, com o amparo e guarida das redes sociais.
Numa sociedade evoluída moral e economicamente, massificação das redes sociais significa mais portas abertas para a evolução social e humana. Nas sociedades degradadas, a massificação das redes sociais, pode representar simplesmente a exposição pública exacerbada das misérias e vísceras nossas de cada dia, além do culto desenfreado a tolice. Simples e óbvio assim.
Portanto, nesses tempos macabros que a insanidade anda solta, no qual tolos se auto-proclamam formadores de opinião (ou seria deformadores?), é preciso escolher cuidadosamente as palavras e também ter prudência e cautela no momento de decidir a quem dar VOZ.
Muitos ignoram a sabedoria que ensina que “as únicas palavras que merecem existir são aquelas que forem melhores que o silêncio”. No entanto, em meio a essa gritaria que diz pouco ou nada, ainda existe muita gente lúcida que merece se pronunciar por todos os meios e se fazer escutar, como o jornalista Sergio Araujo.

Sartori e o Rio Grande mudaram. Para pior
Por Sergio Araujo


Quem assiste a propaganda fantasiosa do governo Sartori e desconhece a realidade econômica e social do Rio Grande do Sul fica com a impressão de que o Rio Grande do Sul está mudando para melhor. O mesmo acontece com os sucessivos anúncios palacianos, fartamente destacados pelos meios de comunicação, como a construção de presídios, a recuperação de escolas e o mais recente, a abertura de concurso público para a contratação de milhares de policiais. Não por coincidência, “as boas novas” são acompanhadas de “declarações cirúrgicas” do PMDB, partido de Sartori, de que ele irá disputar a reeleição no pleito de 2018.
Vamos pois, analisar esse panorama. Só mesmo o sentimento de fracasso gerencial, detectado pelas pesquisas de opinião, pode explicar a repentina mudança no comportamento do governador. Outrora enigmático, cauteloso e avesso a manifestações públicas, Sartori se transformou, inexplicavelmente, num bem falante arauto, proclamador de notícias alvissareiras. Bem diferente do evasivo candidato da campanha eleitoral de 2014. Para ficar apenas nas questões afetas às áreas da segurança, educação e transporte, alvos dos anúncios mais recentes, observemos as seguintes contradições:
Enquanto proclama, diante de um salão Negrinho do Pastoreio repleto de integrantes do governo e da base aliada, a construção de novos presídios em Viamão, Alegrete e Charqueadas, o governo do Estado não consegue colocar em funcionamento a penitenciária de Canoas, recebida praticamente concluída do governo Tarso. Enquanto isso, dezenas de detidos continuam aguardando em viaturas improvisadas de casas de passagem a abertura de alguma vaga nos presídios existentes e superlotados.
Da mesma forma e no mesmo segmento governamental, Sartori proclama a abertura de concurso público para a contratação de mais de 6,1 mil novos policiais. O interessante, que não é dito, é que apesar de passados dois terços do mandato do atual governo, ainda restam aprovados no concurso realizado em 2013 (governo do PT), para a Brigada Militar, Policia Civil e Corpo de Bombeiros, que ainda não foram chamados. Se para eles não existe recursos que possibilite suas contratações, como poderá haver para os novos concursados?
Pois até obras começam a ser anunciadas. É o caso da destinação de recursos (não muitos) para a recuperação de escolas e de rodovias. Novas escolas e novas rodovias? Nem pensar. Pois bem, basta visitar aleatoriamente algumas escolas estaduais e percorrer alguns poucos quilômetros de rodovias estaduais para constatarmos que quase nada foi feito no período sartoriano. O que se observa são prédios em precárias condições e rodovias esburacadas. Nem mesmo o tão badalado Programa de Concessões Rodoviárias, que transfere a responsabilidade da administração de algumas estradas do Estado para a iniciativa privada, conseguiu sair do papel.
Não bastasse o início da fase dos factoides eleitoreiros, até mesmo a recomendação emitida em fevereiro deste ano pela Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público e pelo Ministério Público de Contas, para que o Executivo estadual restringisse os gastos públicos com publicidade enquanto perdurasse a crise financeira, está sendo obedecida. Como é visível que a situação de penúria continua igual – que o digam os servidores do Executivo -, como explicar a proliferação de propaganda do governo pelos mais diversos meios de comunicação, incluindo sites, blogs e cinemas?
Aliás, talvez por ter se dado conta de que a tentativa de antecipar a campanha eleitoral já foi detectada, o próprio Piratini tratou de criar um antídoto para o entusiasmo governamental. Produziu um vídeo, gravado durante uma reunião do secretariado, onde Sartori, aparentemente exaltado, diz que “quem estiver olhando só para a eleição do ano que vem vai se dar muito mal”. Declaração tão espontânea e verdadeira quanto a propaganda governista, que diz que as reformas promovidas pelo atual governo permitem que os gaúchos tenham esperança em relação aos seus futuros.  Uma mensagem que se contrapõe ao discurso exaustivamente repetido pelo secretário estadual da Fazenda de que “se o Rio Grande ainda não conhecia o caos, agora iria conhecer”.
De todo esse esforço, de todo esse empenho para tentar salvar um governo que pouco fez e que ainda não disse a que veio, o que restará em outubro de 2018, quando os gaúchos escolherem o novo governador, será apenas ruínas de uma guerra recessiva e predatória aos interesses do Estado. E o atual governo quer que acreditemos nas suas boas intenções? Fosse um governo realista, como Sartori tantas vezes prometeu em sua campanha, já teria acreditado naquilo que mais se escuta Rio Grande à fora: Mais quatro anos? Por quê? E para quê?
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Sergio Araujo é jornalista.

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