O Blog busca retratar coisas da vida interiorana e do meu interior, numa abordagem que mistura reflexão, notícias, riso, poesia, musicalidade, transcedentalidade e outras cositas más. Tudo feito com produções próprias, mas também com a reprodução do pensar ou do sentir dos grandes gênios que o país e a humanidade pariram.

sábado, 29 de junho de 2013

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Ato político


Paulo Teixeira, para ler, conectar, pensar, agir, aplaudir, rebelar-se e transformar para melhor...

Carta aos Jovens, por Paulo Teixeira


Os avanços do Brasil foram construídos pelas diversas juventudes que tomaram as ruas em momentos fundamentais da nossa história. Vocês agora estão escrevendo mais um capítulo dessa narrativa.

Quero parabenizá-los pelas vitórias. Vocês conquistaram não apenas a redução das tarifas de transporte público em várias cidades. Vocês reconquistaram as praças, ruas, avenidas e sonhos.

Vocês nos ensinaram muito. A principal lição é a de que nós – os partidos políticos, sobretudo de esquerda – não podemos nos acomodar ao que já foi feito. Avançamos muito nos últimos dez anos, com os governos Lula e Dilma. Vencemos a fome, reduzimos desigualdades sociais e regionais históricas. Distribuímos renda, crescemos com inclusão social. Geramos 20 milhões de empregos com carteira assinada, conquistamos uma das menores taxa de desemprego do mundo. Democratizamos o acesso ao ensino técnico e à universidade.

Hoje, os filhos de trabalhadores humildes, antes condenados ao destino de seus pais e avós, estão chegando à universidade por meio da expansão da rede pública de ensino superior, das bolsas do ProUni, das cotas sociais e raciais.

Muitos jovens como vocês, outrora excluídos da cidadania, conquistaram o direito de estar nas ruas, exigindo mudanças mais profundas. Não tenho dúvidas de que vocês – porque forjados na luta – saberão encarar o mundo de maneira solidária, humanista, com outros valores que não o vale-tudo, esse cada-um-por-si que a unidade do movimento da juventude acaba de derrotar nas ruas.

Mas vocês sabem que o Brasil não está pronto, que ainda está longe de ser o país que sonhamos. Precisamos avançar ainda mais, aprofundar as mudanças, intensificar o combate às desigualdades, implantar a segunda geração dessa verdadeira revolução democrática iniciada em 2003.

É preciso gerar mais e melhores empregos, aumentar os investimentos em educação, melhorar a qualidade da saúde pública, investir em transportes públicos de qualidade, acelerar as reformas agrária e urbana. Criar um imposto sobre as grandes fortunas.  Jamais perder de vista que os movimentos que iniciaram as atuais manifestações nasceram da luta contra a mercantilização dos serviços públicos. A boa notícia é que a Câmara dos Deputados, fruto das mobilizações populares, aprovou a destinação de 25% dos recursos dos royalties de petróleo para a saúde e 75% para a educação.

O Brasil requer um novo ciclo de lutas democráticas. E este ciclo de lutas não pode prescindir das centrais sindicais, das entidades estudantis, dos coletivos políticos e culturais da periferia, dos movimentos dos oprimidos e das minorias, dos que sonham e trabalham por um país cada vez mais justo.

Dilma soube entender e dar à voz das ruas respostas rápidas e precisas. Propôs cinco pactos nacionais: por responsabilidade fiscal, saúde, transporte, educação e um plebiscito pela reforma política. Essa é uma decisão histórica porque tem o poder de devolver ao povo o que é do povo. É um passo decisivo para, como enfatizou a presidenta, construirmos uma sociedade em que o cidadão, e não o poder econômico, esteja em primeiro lugar.

Cabe a nós continuarmos a luta por uma Assembleia Constituinte específica para a reforma política, porque queremos mudar as regras do jogo eleitoral, queremos uma nova forma de fazer política. Mais uma vez, será necessário que as vozes das ruas gritem, agora na defesa de um plebiscito que escute o povo e nos ajude a fazer as perguntas necessárias para alcançarmos mais democracia participativa e direta, na construção da reforma política.

A reforma política é uma das muitas lutas que nos unem. É preciso garantir que novos atores sejam incorporados à cena democrática, em substituição ao poder econômico que impede a participação do cidadão comum. A captura das instâncias políticas pelos grandes financiadores de campanhas eleitorais é o que leva à atual composição conservadora do Parlamento.

Os setores conservadores querem que a luta de vocês seja contra os partidos políticos. Eles sonham com uma grande mobilização apolítica, quando o que vocês fazem é exatamente o contrário – é política na veia!

Não precisamos de menos política. O que precisamos é de cada vez mais jovens fazendo política: por meio dos partidos, que devem ser oxigenados, para estabelecer diálogo permanente com as ruas, das entidades estudantis, dos movimentos sociais, como o do passe livre ou de forma independente, ocupando as ruas, como vocês têm feito.

Pessoas novas, com ideias novas, dispostas a mudar as velhas regras do jogo. Que compreendam a democracia como a real expressão da soberania popular, hoje ameaçada pela crescente mercantilização das eleições. 

Sabemos que a atuação política se dá cada vez mais por meio das redes sociais. O cidadão está online, exigindo transparência, querendo debater, apresentar propostas e fiscalizar a execução de políticas públicas de seu interesse.

Além da mudança na legislação eleitoral, temos, portanto, que ampliar os mecanismos de democracia participativa, criar as ferramentas digitais que possibilitem o pleno exercício dessa nova cidadania.

É preciso também questionar o papel da mídia tradicional, como as ruas estão fazendo. De anos e anos de manipulação midiática nasceu todo esse caldo cultural de ódio aos partidos e aos movimentos sociais organizados, de criminalização generalizada da política. Daí nasceu também a tentativa de fazer crer que o Brasil está dominado pela corrupção, quando acontece exatamente o contrário: uma luta sem tréguas, tanto do governo quanto da sociedade, pelo aperfeiçoamento dos mecanismos de combate ao mau uso dos recursos públicos.

Tais atitudes demonstram a urgência tanto da democratização dos meios de comunicação quanto da popularização do acesso à banda larga, para que os mais diversos setores da sociedade possam se expressar livremente, derrotando a tentativa de imposição do pensamento único.

Nas recentes manifestações, a classe média sentiu na pele a repressão que aterroriza diariamente a juventude pobre e negra das periferias. O gás lacrimogênio, o spray de pimenta e as balas de borracha demonstram o despreparo e a truculência da Polícia Militar de São Paulo, que reviveu os tempos da ditadura, agredindo e ferindo indistintamente manifestantes, jornalistas e quem passasse por perto.

Querem vender a ideia de que a juventude que foi às ruas é nossa inimiga, quando na verdade vocês são nossos aliados, porque apontam nossos erros, corrigem nossos desvios de rota, não nos deixam jamais esquecer as razões pelas quais lutamos.

Em todos esses momentos, lutamos para implementar os ideais de justiça e igualdade que impulsionam as lutas da esquerda ao longo do tempo. Não poderíamos, portanto, ficar alheios à importância de vocês, que são parte de uma construção histórica comum.

Suas bandeiras são as nossas, nosso palco são as ruas. Nossas armas, a utopia e o desejo de mudança dos que nunca fogem à luta.


* Paulo Teixeira é Deputado Federal (PT-SP)


Altas conexões




Autorretrato

Yo e minha filhota Anahy, numa visita surpresa que ela me fez recentemente antes de arrumar as malas para voltar a morar na Grande Porto Alegre

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Rir é o melhor remédio




Viva a mudança!

O Brasil de Dilma e Lula não é só o país do futebol. O Brasil de Dilma e Lula é o país que acredita e dá oportunidade para todos os brasileiros e valoriza nossas riquezas, a exemplo do futebol.


O Brasil de Dilma e Lula é um país com muitos desafios a serem vencidos, porém maior, mais forte, mais livre e com mais energia para superar os problemas.


O Brasil de Dilma e Lula ainda tem pela frente uma longa caminhada até soterrar as marcas de um passado de medo, abandono, atraso e exclusão. Mas esse Brasil segue vencendo barreiras e semeando novas conquistas, sem esquecer que não foi fácil chegar aonde chegamos e inaugurar a construção de um Brasil melhor para todos os brasileiros.


Há os que tentam negar os avanços e naturalizar as mudanças em curso no país (como se fossem obras do tempo ou dos céus, e não de decisões políticas), dizendo que Dilma e Lula são apenas a continuidade de FHC. Se Dilma e Lula são tão iguais a FHC por que os tucanos criticam tanto o governo e por que o Brasil de hoje, apesar dos problemas, limites e desafios a serem vencidos, faz mais para mais brasileiros em todo o Brasil, não esconde a sujeira debaixo do tapete, não usa o cabresto do FMI, e é mais respeitado pelo mundo?


O blog do Toninho, apesar de refutar o tom panfletário, tem lado e cor, e quer reforçar sua participação nesse bom e necessário debate sobre o passado, o presente e o futuro político do país. Para tanto, inauguro o espaço VIVA A MUDANÇA!




quarta-feira, 26 de junho de 2013

Pitada filosófica




Ato político


Enfim, alguém sóbrio e certeiro em meio a tanta alucinação e depredação não só do patrimônio público e privado ou da integridade física das pessoas, mas de um dos maiores patrimônios que só muito recentemente começou a ser edificado com vigor no Brasil, que é a democracia e o Estado Democrático de Direito.


Protestemos por mais e melhores condições de vida, mas cuidado para não embarcar numa onda fascista que nos faça andar para trás, ao invés de avançar. Reivindiquemos uma vida melhor e mais justa, hoje e sempre, porém não deixemos de perceber as conquistas promovidas por dez anos de governo progressista no país, bem ao contrário da privataria, da truculência e da exclusão levadas a cabo pelos neoliberais tucanos que querem e defendem com unhas, dentes e golpes de manchete um estado mínimo para a maioria e máximo para uma meia dúzia, como diria o monumental Olívio Dutra.


Nesse contexto, é que as palavras de Marco Aurélio Weissheimer ganham forma, conteúdo e fazem todo sentido...


Não há um “movimento” em disputa, mas uma multidão sequestrada por fascistas


O que começou como uma grande mobilização social contra o aumento das passagens de ônibus e em defesa de um transporte público de qualidade está descambando a olhos vistos para um experimento social incontrolável com características fascistas que não podem mais ser desprezadas. A quem interessa uma massa disforme na rua, “contra tudo o que está aí”, sem representantes, que diz não ter direção, em confronto permanente com a polícia, infiltrada por grupos interessados em promover quebradeiras, saques, ataques a prédios públicos e privados, ataques contra sedes de partidos políticos e a militantes de partidos, sindicatos e outros movimentos sociais? Certamente não interessa à ainda frágil e imperfeita democracia brasileira. Frágil e imperfeita, mas uma democracia. Neste momento, não é demasiado lembrar o que isso significa.

Uma democracia, entre outras coisas, significa existência de partidos, de representantes eleitos pelo voto popular, do debate político como espaço de articulação e mediação das demandas da sociedade, do direito de livre expressão, de livre manifestação, de ir e vir. Na noite de quinta-feira, todos esses traços constitutivos da democracia foram ameaçados e atacados, de diversas formas, em várias cidades do país. Houve violência policial? Houve. Mas aconteceram muitas outras coisas, não menos graves e potencializadoras dessa violência: ataques e expulsão de militantes de esquerda das manifestações, ataques a sedes de partidos políticos, a instituições públicas. Uma imagem marcante dessa onda de irracionalidade: os focos de incêndio na sede do Itamaraty, em Brasília. Essa imagem basta para ilustrar a gravidade da situação.

Não foram apenas militantes do PT que foram agredidos e expulsos de manifestações. O mesmo se repetiu, em várias cidades do país, com militantes do PSOL, do PSTU, do MST e pessoas que representavam apenas a si mesmas e portavam alguma bandeira ou camiseta de seu partido ou organização. Em Porto Alegre, as sedes do PT e do PMDB foram atacadas. Em Recife, cerca de 200 pessoas foram expulsas da manifestação. Militantes do MST e de partidos apanharam. O prédio da prefeitura da cidade foi atacado. Militantes do MST também apanharam em São Paulo e no Rio de Janeiro, entre outras cidades. Em São Paulo, algumas dessas agressões foram feitas por pessoas armadas com facas. E quem promoveu todas essas agressões e ataques. Ninguém sabe ao certo, pois os agressores agiram sob o manto do anonimato propiciado pela multidão. Sabemos a identidade de quem apanhou, mas não de quem bateu.

Desde logo, cabe reconhecer que os dirigentes dos partidos, dos governos e dos meios de comunicação têm uma grande dose de responsabilidade pelo que está acontecendo. Temos aí dois fenômenos que se retroalimentam: o rebaixamento da política à esfera do pragmatismo mais rasteiro e a criminalização midiática da política que coloca tudo e todos no mesmo saco, ocultando da população benefícios diários que são resultados de políticas públicas de qualidade que ajudam a vida das pessoas. Há uma grande dose de responsabilidade a ser compartilhada por todos esses agentes. A eternamente adiada Reforma Política não pode mais esperar. Em um momento grave e difícil da história do país, o Congresso Nacional não está em funcionando. É sintomático não ter ocorrido a nenhum dos nossos representantes eleitos pelo voto convocar uma sessão extraordinária ou algo do tipo para conversar sobre o que está acontecendo.

Dito isso, é preciso ter clareza que todos esses problemas só poderão ser resolvidos com mais democracia e não com menos. O rebaixamento da política à esfera do pragmatismo rasteiro exige partidos melhores e um voto mais esclarecido. A criminalização da política, dos partidos, sindicatos e movimentos sociais exige meios de comunicação mais responsáveis e menos comprometidos com grandes interesses privados. Não são apenas “os partidos” e “os políticos” que estão sendo confrontados nas ruas. É a institucionalidade brasileira como um todo e os meios de comunicação são parte indissociável dessa institucionalidade. Não é a toa que jornalistas, equipamentos e prédios de meios de comunicação estão sendo alvos de ataques também. Mas não teremos meios de comunicação melhores agredindo jornalistas, incendiando veículos de emissoras ou atacando prédios de empresas jornalísticas.

Uma certa onda de irracionalidade atravessa esse conjunto de ameaças e agressões, afetando inclusive militantes, dirigentes políticos e ativistas sociais experimentados que demoraram para perceber o monstro informe que estava se formando. E muitos ainda não perceberam. Após as primeiras grandes manifestações que começaram a pipocar por todo o país, alimentou-se a ilusão de que havia um “movimento em disputa” nas ruas. O que aconteceu na noite de sexta-feira mostra claramente que não há “um movimento” a ser disputado. O que há é uma multidão disforme e descontrolada, arrastando-se pelas ruas e tendo alvos bem definidos: instituições públicas, prédios públicos, equipamentos públicos, sedes de partidos, jornalistas, meios de comunicação. Os militantes e ativistas de organizações que tentaram começar a fazer essa disputa na noite de quinta foram repelidos, expelidos e agredidos. Talvez isso ajude a clarear as mentes e a desarmar um pouco os espíritos para o que está acontecendo.

Não é apenas a democracia, de modo geral, que está sob ameaça. Há algo chamado luta de classes, que muita gente jura que não existe, que está em curso. Não é à toa que militantes do PT, do PSOL, do PSTU, do MST e de outras organizações de esquerda apanharam e foram expulsos de diversas manifestações ontem. Com todas as suas imperfeições, erros, limites e contradições, o ciclo de governos da última década e em outros países da América Latina provocou muitas mudanças na estrutura de poder. Não provocou todas as necessárias e esse é, aliás, um dos fatores que alimentam a explosão social atual. Mas muitos interesses de classe foram contrariados e esses interesses não desistiram de retornar ao poder plenamente. Tem diante de si uma oportunidade de ouro.

Como jornalista, militante político de esquerda e cidadão, já firmei uma convicção a respeito do que está acontecendo. Uma multidão cuja direção (rumo) passou a ser atacar instituições públicas, sem representantes, sequestrada por grupos de extrema-direita, que rejeita partidos políticos e hostiliza manifestantes de esquerda, não só não me representa como passa a ser algo a ser combatido politicamente. Ou alguém acha que setores das forças armadas e da direita brasileira estão assistindo a tudo isso de braços cruzados?

terça-feira, 25 de junho de 2013

Música para os meus ouvidos

No momento de um grande impasse histórico, no qual o Brasil pode rejuvenescer dez anos ou mais em menos de um mês, ou então andar para trás a passos alucinantes, me ecoa por dentro a voz lúcida do gênio Humberto como um convite à justa rebeldia mesclado ao equilíbrio que toda causa justa deve ter e impregnar...




Pensar é preciso

Nesses tempos de grandes e barulhentas manifestações populares no país – a maioria justíssima, outras oportunistas e outras puros atos de vandalismo –, nada melhor que afirmar aquilo que nos torna humanos e distingue dos bichos: a capacidade de pensar.

Protestar pela efetivação ou ampliação dos direitos é preciso e urgente em qualquer época da humanidade, porém sem nunca perder a ternura e a racionalidade. Do contrário, podemos nos tornar tão irracionais quanto os animais. Do contrário, ao invés de avançar, podemos cair nas garras dos velhos lobos em pele de ovelha do passado que agora tentam posar de justiceiros e donos da verdade, mas, a exemplo da parábola do escorpião e do sapo, estão à espreita de uma oportunidade para nos ferrar novamente e manter de bico calado!

Diante do exposto, o blog do Toninho promove a estreia de PENSAR É PRECISO. E para começar, invoco o pensar sempre sóbrio, profundo e preciso de Marcos Rolim...

A INTERNET: ENTRE APOCALÍPTICOS E INTEGRADOS



Em um artigo de 2011, publicado pela New Yorker (The Information: How the Internet gets inside us), Adam Gopnik lembra que o primeiro livro da série Harry Potter é de 1997, um ano antes do aparecimento do Google, a ferramenta de busca na Internet mais usada em todo o mundo.
Há uma passagem no livro em que Hermione vai até a biblioteca de Hogwarts e passa horas pesquisando sobre o basílico e sobre como fazer uma poção de amor. Para Gopnick, a ideia de que uma aprendiz de magia pudesse dispor de uma pequena tela onde, após alguns cliques, receberia milhares de informações sobre o que desejasse, incluindo artigos científicos e imagens, seria uma “vassoura de Quadribol muito avançada” para aquele momento. Agora, quando as crianças assistem à cena nos filmes, se perguntam: -“Por que ela está fazendo isso? Por que ela simplesmente não “google it”?

A passagem ilustra a rapidez de um processo de mudanças tecnológicas que alteram a sociabilidade, o acesso à informação, os debates contemporâneos e, talvez, a qualidade do conhecimento e das oportunidades de vida. O debate sobre o sentido destas transformações está ainda em seu início. Parafraseando Humberto Eco, penso que seja preciso construir uma síntese crítica que se situe em algum espaço entre “apocalípticos e integrados”; vale dizer, entre as posições daqueles para quem a verdadeira cultura e a virtude se exilaram no passado pré-digital (os apocalípticos) e aqueles para quem as próprias ideias de verdadeira cultura e virtude perderam o sentido em um mundo de progressiva autonomia e radicais possibilidades democráticas (os integrados).

A historiadora Ann Blair mostrou em seu livro “Muito para saber: lidando com a informação acadêmica antes da idade moderna” (Too Much to Know: Managing Scholarly Information Before the Modern Age) que, ao final da Idade Média, a popularização dos manuscritos e dos livros produziu a visão pessimista pela qual alguns acreditaram que tanta informação disponível dificultaria a concentração e as boas escolhas. Panfletos e poemas que passavam a circular iriam produzir um “mundo fragmentado” e sem sentido. Com tantos livros, as pessoas não teriam mais tempo para ler o que realmente deveria ser lido. Críticas do tipo, aliás, muito mais tarde, caracterizaram vários dos estudos sobre a TV. Hoje, a Internet concentra as preocupações. Nossos jovens estariam presos demais à rede, conectados a ponto de prejudicar seus cérebros etc. Os problemas reais, entretanto, talvez não sejam exatamente estes.

Estudo sobre os hábitos culturais da população, realizado pelo governo francês ao longo das últimas quatro décadas (Les Pratiques Culturelles des Français), mostrou que a visão otimista segundo a qual a Internet democratizaria o acesso à cultura pode não corresponder à realidade. Na vida real, as pessoas parecem procurar na Internet apenas os produtos de sua própria formação cultural. Assim, jovens com formação cultural precária navegariam nos limites dos seus horizontes, reforçando suas preferências ao invés de superá-las pela descoberta de novos valores. Na outra ponta, jovens de melhor preparo acadêmico e com maior contato com a cultura universal, encontrariam na Internet possibilidades de aperfeiçoamento, pesquisando, acessando sites culturais, recebendo informação qualificada, aprendendo idiomas etc. O resultado seria, ao final, o aprofundamento das desigualdades culturais.

O que parece importante reter é que a introdução de uma nova tecnologia se presta para diferentes conteúdos e resultados. Visões preconceituosas e fundamentalistas proponentes da violência encontram na Web um espaço tão importante para sua disseminação quanto o saber científico e os valores humanistas comprometidos com a paz e a tolerância. Em síntese, não há tecnologia capaz de livrar a humanidade da estupidez, mas a estupidez pode se valer da tecnologia e frequentemente o faz. Por outro lado, círculos virtuais de relacionamento são muito diversos de círculos sociais. Quando interagimos socialmente, estamos sob o escrutínio das pessoas – sabendo, portanto, que seremos julgados por elas. Ao mesmo tempo, as normas de convivência civilizada tendem a moderar nossos desejos. Já nas interações virtuais, com a possibilidade do anonimato digital, os desejos tendem à expansão e ao desregramento. O que antes existia apenas no fundo sem fundo dos indivíduos, nos espaços obscuros das almas atormentadas, agora se dissemina pelas redes e se transforma em ameaça real. Neonazismo, racismo, homofobia, pedofilia, terrorismo e outras maldições ganham corpo neste espaço, o que talvez comprove que a modernidade carrega a barbárie como sombra incansável.

Catando estórias


O Sapo e o Escorpião

Certa vez, um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio.
O escorpião vinha fazer um pedido:

"Sapinho, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo?" 

O sapo respondeu: "Só se eu fosse tolo! Você vai me picar, eu vou ficar paralisado e vou afundar."

Disse o escorpião: "Isso é ridículo! Se eu o picasse, ambos afundaríamos."

Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, enquanto nadava para atravessar o rio.

No meio do rio, o escorpião cravou seu ferrão no sapo.

Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou: "Por quê? Por quê?"

E o escorpião respondeu: "Por que sou um escorpião e essa é a minha natureza."

domingo, 23 de junho de 2013

Dilma fala à nação

Com a palavra "dona Dilma"...




Secretário Municipal Destaque


Em recente pesquisa de opinião pública realizada pela Tallento’s Pesquisas e Publicidade, o Secretário de Planejamento e Meio Ambiente, Toninho Veleda, foi eleito por 43% dos entrevistados como o Secretário Municipal Destaque no ano de 2013.

Na última sexta-feira, 21, o Secretário recebeu das mãos do representante da empresa promotora da pesquisa troféu e certificado que outorgam e registram o 1.º lugar alcançado na sua categoria.

Toninho se disse muito surpreso, feliz e agradecido pelo resultado da pesquisa. De acordo com ele, “tal honraria e, principalmente, o reconhecimento pelo meu trabalho, me instigam a fazer mais e cada vez melhor em benefício da administração pública e de todos os hervalenses”, declarou.

sábado, 22 de junho de 2013

Momento poético

 

Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois

Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois

Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois

Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois


Mario Quintana


sexta-feira, 21 de junho de 2013

Nem só de pão viverá o homem




Marcon deverá ampliar valor das emendas para Herval


O Secretário Adjunto de Planejamento e Meio Ambiente, Chico Gonçalves, e o Vereador Davi dos Santos (PPL) participaram ontem (20) em Candiota de reunião com o deputado federal Dionilso Marcon (PT). O encontro teve como objetivo discutir as relações do mandato do parlamentar com os municípios e lideranças sociais e políticas da região.

Na oportunidade, Chico e Davi agradeceram o apoio que Marcon tem dado a Herval, não apenas através de emendas, mas também nas demandas da administração do município e dos movimentos sociais. Eles também solicitaram a ampliação do valor da emenda destinada anualmente ao município, recebendo de Marcon a garantia de que já no próximo ano os investimentos do governo federal em Herval por meio de emendas do parlamentar deverão saltar de R$ 100 mil para pelo menos R$ 200 mil, em razão das necessidades e do compromisso do deputado petista com os hervalenses.

Segundo Chico, "Marcon tem sido um lutador de muitas causas do município, por isso fico muito à vontade em me somar a sua base política e social que é muito expressiva em Herval. Já o aumento do valor da emenda do deputado que ficou acertado hoje é algo fundamental, tanto para garantir novos investimentos como para fortalecer o trabalho de Marcon em âmbito local", argumentou.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Ato político


“Ato político” trás Marcos Coimbra em linhas retas, implacáveis e sóbrias...

A herança de Fernando Henrique, por Marcos Coimbra

A avaliação de seus mandatos captada em pesquisas explica o motivo de Alckmin e Serra não terem defendido o seu legado. O que fará Aécio Neves?

Enquanto não surgir coisa mais avançada, as pesquisas de opinião continuarão a ser a melhor maneira de interpretar o pensamento da população a respeito das questões coletivas. Sem elas, ficamos com o que acha cada indivíduo ou dizem os grupos mais organizados e loquazes. Os sentimentos e atitudes da maioria permanecem ignorados. É como se não existissem.

Mas as pesquisas estão aí. E permitem uma compreensão dos juízos e as expectativas dos que não se expressam, não mandam cartas ou postam comentários na internet. Há outras formas de fazê-lo, mas nenhuma mais confiável.

Realizá-las não é extravagância ou privilégio. Não custam tanto e um partido político poderoso, como, por exemplo, o PSDB, pode encomendar as suas. Nem um jornal ficará pobre se tiver de contratar alguma.

Por que então as oposições brasileiras as usam tão parcimoniosamente? Por que, se é simples conhecê-la, os partidos e a mídia oposicionista desconsideram a opinião pública?  Tome-se uma velha ideia: as três derrotas sucessivas dos tucanos para o PT teriam sido causadas pela insuficiente defesa da “herança de Fernando Henrique”. Sabe-se lá por que, é uma hipótese que volta e meia reaparece, como se fosse uma espécie de verdade profunda e houvesse evidências a sustentá-la.

Nas últimas semanas, ela retornou ao primeiríssimo plano. Em seu discurso inaugural como presidente nacional do PSDB, o senador mineiro Aécio Neves disse que seu partido se equivocou ao não valorizar o “legado” das duas administrações de FHC. Em suas palavras: “Erramos por não ter defendido, juntos, todo o partido, com vigor e convicção, a grande obra realizada pelo PSDB”.

Salvo uma ou outra manifestação de cautela, a mídia conservadora aplaudiu o pronunciamento. Os “grandes jornais” gostaram de Aécio ter assumido uma tese com a qual sempre concordaram. Faltava-lhes um paladino e o mineiro ofereceu-se para o posto.
E os cidadãos comuns, o que pensam desse “legado”?

Em pesquisa recente de âmbito nacional, o Vox Populi tratou do assunto. Em vez de subscrever (ou atacar) a tese, apenas identificou o que a população pensa a respeito. 

Os entrevistados foram solicitados a avaliar 15 áreas de atuação do governo Dilma Rousseff. Depois, a comparar o desempenho de cada uma nos governos dela e de Lula com o que apresentavam quando Fernando Henrique Cardoso era presidente. As avaliações de todas as políticas nos governos petistas são superiores. Em nenhuma se poderia dizer que, para a população, as coisas estavam melhores no período tucano.

Consideremos algumas: na geração de empregos, 7% dos entrevistados disseram que FHC atuou melhor, enquanto 75% responderam que Lula e Dilma o superaram. Na habitação, 3% para FHC e 75% para Lula e Dilma. Nos programas para erradicar a pobreza, 4% ficaram com FHC e 73% com os petistas. Na educação, o tucano foi defendido por 5% e os petistas por 63%. Na política econômica, em geral, FHC foi avaliado como melhor por 8%, enquanto Lula e Dilma, por 71% dos entrevistados.

No controle da inflação, FHC teve seu melhor resultado: para 10%, ele saiu-se melhor que os sucessores, mas 65% preferiram a atuação de Lula e Dilma no controle de preços.

Na saúde e na segurança, os petistas tiveram as menores taxas de aprovação, mas mantiveram-se bem à frente do tucano: na primeira, Lula e Dilma foram considerados melhores por 46% dos entrevistados. Na segurança, por 45%. FHC, por sua vez, por 7% e 6%.

No combate à corrupção, FHC teria atuado melhor que seus sucessores para 8%, enquanto 48% dos entrevistados afirmaram ter Lula e Dilma sido superiores.

Os políticos e as empresas jornalísticas são livres para crer no que quiserem. Enéas Carneiro era a favor da bomba atômica. Levy Fidelix é obcecado pela ideia de espalhar aerotrens pelo Brasil. Os partidos de extrema-esquerda lutam pelo comunismo. Há quem queira recriar a velha Arena da ditadura.

Ancorar uma campanha presidencial na “defesa do legado de FHC” é um suicídio político. Nem Serra nem Alckmin quiseram praticá-lo. A derrota de ambos nada tem a ver com o fato de não terem feito tal defesa. O problema nunca foi estar distantes demais dos anos FHC, mas de menos.

Resta ver como se comportará, na prática, Aécio Neves. E o que dirão seus apoiadores, quando perceberam que também ele procurará fazer o possível para se afastar do tal “legado”.


quinta-feira, 13 de junho de 2013

Executivo estreita diálogo com sua base no Legislativo


Os vereadores da base de sustentação do governo municipal terão um espaço permanente para dialogar, colher informações, aperfeiçoar propostas do Executivo e apresentar sugestões e críticas diretamente ao comando da administração.

Segundo o prefeito Ildo Sallaberry, a iniciativa foi proposta pelo Secretário Elio Soares, que cuida das relações políticas e institucionais da prefeitura, o qual sugere que todas as terças-feiras, os vereadores se reúnam com o Secretário ou Secretária responsável por uma pasta da administração, sempre que possível com a presença do prefeito e presidentes dos partidos que dão sustentação política e administrativa à gestão municipal, conforme sugestão de Sallaberry.


A primeira reunião foi realizada na última terça-feira, 11, com o Secretário de Planejamento e Meio Ambiente, Toninho Veleda. Além de agradecer a oportunidade e informar aos vereadores sobre a situação de alguns projetos prioritários da prefeitura, o Secretário destacou a importância da iniciativa e a pequena contribuição dada pelo Planejamento para que a mesma fosse instituída.

De acordo com Toninho, “o Secretário Elio é o grande mestre e maestro das relações institucionais do governo, não apenas com a base política da administração, mas com o Legislativo como um todo. No entanto, a determinação do prefeito Ildo é que todo secretariado mantenha uma relação muito estreita com todos os representantes eleitos pelo povo, especialmente com os aliados do governo. Para cumprir tal determinação, a Secretaria de Planejamento tomou algumas medidas concretas, como, por exemplo, designar o Secretário Adjunto da pasta para acompanhar as sessões legislativas; a promoção de reunião dos vereadores governistas com a Secretária da Saúde, num momento em que esta área era alvo de enormes críticas e cobranças e a recente prestação de contas e entrega de relatório detalhado sobre todos os projetos da prefeitura em elaboração, análise ou execução”, argumentou.

Na oportunidade, o prefeito Ildo ressaltou seu compromisso de trabalhar com a máxima sintonia com os vereadores que tem a tarefa e a responsabilidade de defender o governo no Legislativo. Ele ainda relatou algumas iniciativas que visam acelerar a conclusão das obras em andamento, alguns ajustes administrativos que se fazem necessários para atender orientações do TCE e os desafios principais da administração do município no presente momento.

Também participou da reunião a Secretária para Assuntos Jurídicos, Dra. Denise Silveira.


Autorretrato


Yo, dando uma pausa na dieta no último sábado para degustar o afamado doce de Pelotas na Fenadoce

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Material informativo do Meio Ambiente


A Secretaria de Planejamento e Meio Ambiente, aproveitou o 1.º Seminário Municipal do Meio Ambiente, para lançar um folder com informações sobre as principais atribuições e desafios da pasta.


A escrita é de autoria do Secretário Toninho e o trabalho de diagramação do material foi feito pela brilhante jornalista Daiane Madruga. A Coordenadora de Projetos da prefeitura, Cristiane D’Ávila, também colaborou nesse trabalho.







Ato político

Muitas mentes de esquerda, embora sinceras e generosas, preferem surfar nas ondas do imediatismo, brigar por coisas pequenas ou andar com a cabeça no mundo da lua, ao invés de enxergar o que se passa concretamente, em termos de luta política, no mundo real.

A luta continua e pede cada vez mais lucidez e precisão de movimentos. Do contrário, uma nova onda ultraconservadora pode varrer nossas melhores esperanças e os muitos esforços que permitiram alguns passos rumo a um mundo melhor e mais justo...

É este o alerta e o chamado que Tarso Genro vem fazendo a todos nós...


A esquerda brasileira deveria se unir em torno de um amplo movimento político e social em defesa de um programa mínimo de resistência democrática ao impasse que a Europa neoliberal está apresentando ao mundo: novos marcos regulatórios para democratizar o acesso à comunicação e garantir o direito à livre circulação da opinião; reforma política e reforma do pacto federativo, principalmente tributário, para reduzir as desigualdades sociais e regionais. Se não avançarmos nesta agenda de resistência, os avanços que tivemos poderão ser revertidos. O artigo é de Tarso Genro.

O grande movimento que deverá ser feito pelos oligopólios financeiros globais que tutelam as políticas dos países em crise será, processualmente, transferir os ônus da “recuperação” aos países pobres e aos chamados “emergentes”. Não somente através de um desequilíbrio ainda maior, no intercâmbio comercial, mas também desencadeando ondas especulativas sobre as economias que não consigam colocar sob controle sua dívida pública.
Estes oligopólios vão se esmerar – a partir da insegurança generalizada já em curso – em provocar crises de governabilidade instigando, a partir delas, mais uma onda de privatizações, cujos recursos se “esfumarão” rapidamente, como ocorreu aqui no Brasil na era FHC. Ao mesmo tempo irão financiar e incentivar governos tecnocráticos, “choques” de gestão e mais destruição das funções públicas do Estado, como já está ocorrendo em Portugal, na Grécia e na Espanha.
O impasse político gerado pela crise reergueu a Alemanha à condição de potência política de primeira grandeza e ainda não demonstrou todo o seu potencial destrutivo, nem na Europa nem na América Latina. No Brasil, porém, a centro-direita já manifestou que “aceita” o desafio de representar a “saída” desejada pelos credores da dívida pública global. O candidato Aécio Neves colocou na sua agenda a defesa da era FHC, inclusive para sustentar novas privatizações, sinceridade que visa, não só provocar a formação de um bloco neoliberal e conservador, no seu entorno, mas também oferecer o Brasil como território disponível para assimilar aquela transferência da crise.
Trata-se, na Europa, de uma situação aparentemente sem saída, pois as classes trabalhadoras dos países mais atingidos, os setores médios, as empresas endividadas – premidos por uma situação que ameaça o financiamento estatal e os direitos sociais e do “Welfare”- nem conseguem maiorias eleitorais para formar governos de oposição à dogmática neoliberal, nem conseguem constituir um bloco social de caráter contestatório, capaz de por em risco o atual regime do capital. Ou seja: no enfrentamento da crise, nem reforma neo-socialdemocrata, nem revolução social novo tipo, até agora.
Como esta situação de bloqueio às conquistas da socialdemocracia europeia vai interferir na democracia política, com consequências em todo o mundo, ainda não se sabe. Proponho-me, aqui, a levantar algumas hipóteses, para contribuir com o debate sobre a nossa questão democrática, no interior da esquerda que defende a necessidade de governar dentro da ordem democrática e que isso, não só é válido, mas é um “front” elementar para bloquear os avanços da pior direita, que pode levar o mundo a uma nova ordem neofascista.
Entendo que o fato político mais marcante deste período é a subjugação da França pela Alemanha, quebrando as esperanças de um vasto contingente popular de esquerda e de centro-esquerda – algo que vai de Hollande a Mélenchon – que esperava por parte do governo Hollande um processo restaurativo dos direitos e benefícios que vinham sendo sucateados pelo governo Sarkozi, que levou este à derrota eleitoral. Algo de bem significativo -em termos político-eleitorais – apresentou-se naquele cenário, com um crescimento eleitoral expressivo, à direita à esquerda da socialdemocracia tradicional, já demonstrando a emergência de inconformismo radicalizado com os partidos da ordem que se renderam à Alemanha.
Entendo que o presidente Hollande pretendia, por convicção e necessidade política, restaurar o pacto socialdemocrata, esquecendo que ele fora erguido sob pilares sem fundo, o que frustrou as expectativas sobre o seu governo. Nem foram encaminhadas medidas alternativas de longo curso, para organizar um novo modelo de bem-estar que, pelo menos, repartisse os sacrifícios necessários para sair da crise. Sair da crise dentro do regime do capital, diga-se de passagem, pois ninguém com força política real na França estava defendendo, por exemplo, uma nova onda de nacionalizações ou a estatização dos bancos, com ocorreu na era Mitterrand.
Aqui reside, na minha opinião, a questão-chave. O que devemos nos perguntar é se, moldada a União Europeia tal qual foi moldada, Hollande poderia fazer reformas “pela esquerda” sem romper com União. Ou, ainda, sem usar “medidas de exceção” no terreno econômico (como aumentar o déficit público, exigir financiamento para os governos e empresas, não para os bancos privados), para proteger especialmente as pequenas e médias empresas, os empregos, bem como distribuir a proteção social mínima, necessária em momentos agudos de desmantelamento social, como está ocorrendo nos principais países do euro.
O que Hollande não fez a União Europeia fez, pois o que se observou nas saídas engendradas para a crise – por parte das autoridades da União Europeia – foi precisamente a declaração de uma emergência política, com um “estado de exceção” não declarado, para a tomada de decisões. E isso foi feito a partir de um “constitucionalismo de urgência”, no qual as regras gerais da União foram subjugadas por decisões intergovernamentais, bancadas pelo Banco Central Europeu.
Em especial estas medidas foram orientadas pela política nacional alemã, pois, de um só golpe, as medidas de austeridade (de caráter “excepcional”) sequestraram a soberania política dos países em crise e interferiram duramente nos seus orçamentos: “os perdedores, até o momento, neste processo, são os parlamentos, tanto os nacionais, como o Parlamento Europeu.” (Carlos Closa, “El Estado da Unión Europea”, El fracaso de la austeridad, Fundación Alternativas, 2012, pg.24). Resultado: o sequestro da política, que esvaziou o sr. Hollande, foi capitalizado na ação política alemã, sob o comando da sra. Merkell.
Em síntese: a “exceção”, com o nome de “intergovernamentalismo” já começou, comandada pela direita alemã, sem que sejam consideradas as consequências para o projeto democrático europeu e os seus efeitos destrutivos sobre a juventude, os idosos, os aposentados, os trabalhadores do setor público, os precários e intermitentes, os imigrantes e os desempregados. O que farão os cidadãos europeus, quando descobrirem que não adianta mudar governos? Eis a pergunta recentemente lançada pelo professor Boaventura Souza Santos, em artigo memorável.
Sugiro, como agenda para debate, que o impasse europeu poderá desdobrar-se em três possibilidades: 1. as reformas de austeridade são implantadas e forma-se a famosa sociedade dos três terços, como vinha sendo encaminhado aqui no Brasil, pela saudosa aliança tucano-pefelista (um terço incluído e feliz, um terço que come mais ou menos e não se educa e o outro terço nos guetos sociais das periferia, tratados predominantemente pela Polícia); 2. ou as reformas de austeridade se desdobrarão por muito tempo, comandadas por governos tecnocráticos semi-fascistas, com sustentação nas mídias e fortes repressões seletivas contra os imigrantes e miseráveis, com o apoio envergonhado das classes médias (nenhum dos blocos em confronto, nesta hipótese, tem força para impor-se); 3. ou processa-se um novo episódio da revolução social europeia, que se arrasta desde a Comuna de Paris, reinventando-se ali algo como um novo pacto “socialista-social-democrata” -um novo contrato social europeu – para enfrentar a direita alemã (com seus tentáculos tecnocráticos e políticos em todos os países europeus) cuja pior face já vem crescendo no interior da própria Alemanha: o neonazismo. Um bloco que suponha que preservação da democracia só ocorrerá com o sequestro, desta feita, da economia pela política.
Isso tem muito a ver conosco, que a duros custos estamos remando contra a maré: criando empregos, reestruturado o setor público, contratando servidores, investindo incomparavelmente mais em inovação, ciência e tecnologia, fortalecendo o mercado interno ao incluir no consumo milhões de famílias. Mesmo conciliando com o domínio pleno do capital financeiro sobre a economia global – o que inclusive Cuba vem tentando fazer e é impedida pelo bloqueio político e econômico dos Estados Unidos – o Brasil constitui uma ameaça mundial às saídas ofertadas pela dogmática neoliberal, porque mostra que as opções no terreno da política podem fazer frente à visão de que “não existem alternativas.”
É visível, porém, que um certo tipo de desenvolvimento que desafia e se contrapõe às leis de bronze do capital financeiro pode perdurar, com o mesmo bloco de forças que lhe dão sustentação, pelo tempo do cumprimento das tarefas que impulsionaram a sua formação. E que nos próximos cinco anos, certamente, nosso modelo atingirá o apogeu e a sociedade brasileira não será “inteiramente outra”, mas terá uma estrutura de classes e novos sujeitos sociais e políticos novos.
Milhões de pessoas estarão no mundo da política, dos negócios, dos movimentos sociais, na intelectualidade acadêmica, à frente das técnicas de indústria e da inteligência, indiferentes à memória política do processo de mudanças que o país sofreu. A partir daí os desafios serão outros, mais complexos e difíceis de resolver dentro do sistema político atual, com a fragmentação federativa ainda mais exposta e com um sistema tributário que funcionará de forma mais arcaica do que nos dias de hoje.
O difícil sistema de alianças que trouxe o Brasil até hoje dá sinais de cansaço, não porque os políticos são vilões ou corrompidos, até porque a taxa de vilania e corrupção, em cada época, é mais ou menos a mesma. Ela adquire é tinturas diferentes, desperta interesse ou alimenta indiferença na grande mídia, segundo seus interesses conjunturais (onde estão as cobranças para o julgamento do mensalão mineiro?). Os processos de corrupção no Estado, é elementar, são dependentes das formas pelas quais se realiza a acumulação de capital e como esta reflete inclusive no financiamento das mídias, com as suas regras “morais” mais, ou menos rígidas. Na era do capitalismo financeiro global os multimilionários esquemas de corrupção se transladaram das relações da burguesia industrial com Estado, para as relações diretas da burguesia financeira com o Estado.
O sistema de alianças dá sinais de cansaço, porque as mudanças no sistema tributário, a fragmentação federativa e a necessidade da reforma política, despertam reações diferentes nos distintos grupos de classes e nas diferentes regiões do país. Esta fadiga dos metais imobiliza as bases parlamentares, proporcionando que grupos de parlamentares troquem de posições em cada tema, sem nexo com as suas bancadas e com os seus compromissos de fidelidade ao governo ou à plataforma oposicionista.
Enquanto na Europa o tecido político dominante cumpre o seu papel de transmissor do programa do Banco Central Europeu, no Brasil este mesmo tecido fragmenta-se porque não mais corresponde aos desafios políticos que os partidos devem enfrentar, em nome das suas bases sociais e regionais: enfrentá-los para o país completar seu ciclo de mudanças, capazes de nos integrar no mundo, no polo de resistência a um neoliberalismo agônico, mas, por isso mesmo, mais capaz de radicalizar os ataques à democracia, para destruir as conquistas históricas do conjunto das classes trabalhadoras no século passado.
Creio que a esquerda brasileira – parlamentar ou extra-parlamentar – socialista, comunista, socialdemocrata, ou simplesmente republicano-democrática – deveria se unir em torno de um amplo movimento político e social para preparar um calendário de lutas, com um programa mínimo muito simples, de resistência democrática ao impasse que a Europa neoliberal está apresentando ao mundo: novos marcos regulatórios para democratizar o acesso à comunicação e garantir o direito à livre circulação da opinião; reforma política, no mínimo para acabar com o financiamento privado nas eleições e valorizar os partidos através da votação em lista; reforma do pacto federativo, principalmente tributário, para reduzir drasticamente as desigualdades sociais e regionais.
Estou tentado a pensar que se não conseguirmos avançar, nos anos imediatos, nesta agenda democrática de resistência, os avanços que tivemos até agora poderão ser revertidos, porque sabemos muito bem: o nosso centro do espectro político não é majoritariamente programático, mas vincula-se a um complexo de conveniências, que não raro lhe aproximam da pior direita, tanto neoliberal, como autoritária.
(*) Governador do Estado do Rio Grande do Sul.



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