terça-feira, 2 de junho de 2009

"Memórias de minha vida inventada..."




Reproduzo neste espaço - como forma de matar a saudade (se é que a saudade se mata, como dizia o poeta) -, algumas palavras íntimas e profundas como o oceano que me foram enviadas pelo "sor Osmar" em novembro de 2008.


De longe te saúdo.
Aproveito para te enviar as "Memórias de minha vida inventada..."

Quando o sol acendeu a manhã, eu ja folhava as páginas desengonsadas do corpo num banho sem pressa. Não vi como as coisas espumantes envolviam-me, pensativo que estava. Derrepente (inventei esta grafia) uma sanga de lembranças roço-me as pernas. Um cheiro de mato invadiu minha alma coroca. O gelo daquela água da sanga despertou um saudosismo particular, único, meu apenas. Ouvi nitidamente o grito das meninas na barranca arrancando os trapos e pulando pra dentro da água e aproveitando minhas memórias. Estas primas apagaram-se na distância como a fumaça que a gente vê ao longe. Como podem ter partido se nao as vi sair da memória? Não deram tchau. É por isso esta melancolia no café da manhã? Ao longe as cantorias da tia, parecem acompanhar o ritmo das águas. Os manos correm em nossa direção. O mundo se resume nesta alegria que estravasa nossos corpos pequenos. A alma sempre foi maior que o corpo? A mãe diz que não. E ri. A alma cabe perfeita no corpo. E por onde ela sai. Ri de novo. Acho que pela risada mãe. Os índios que disseram pra ele. Faz tempo, tínhamos um mundo no quintal. A alegria era uma planta simples que nascia nos fundo onde passava trovejante as águas da sanga. Ali todas as dores e sugeiras da vida escorriam com sabão feito em casa e mãos calejadas. Naquelas margens nossas folhas ficavam brancas. Claro, não sabíamos que escrevíamos também o rascunho mais importante de nossos dias. Foram os limos daquelas pedras que limaram nossa alma e fizeram-na caber dentro do corpo. Foram tempos de contentamento com o pequeno, com o simples, com o-que-cabe-na-palma-da-mão. Depois veio um tempo de latifúndios, um tempo de querer o anúncio das revistas das tvs. Um anúncio que sujou a água da sanga. Foi quando as gurias sairam sem dizer tchau. Quando a mãe parou de rir. Quando a alegria passou por um período de estio. Quando o quintal se povoou de modernidades. Foi quando uma bacia enorme nasceu feito planta de ferro no pátio e trouxe um mundo de cartazes semoventes para dentro de casa. O irmão começou a fumar. A irmã engravidou. O pai achou uma cachaça com butiá. A escola me ensinou que eu sonhava errado e eu acreditei.
Hoje meu banho tem a culpa da água que se esgota, da vida que se esvai lenta e sem remédios pelo ralo dos anos. Pensando nisso desligo o chuveiro e saio a tempo de ver a tv anunciar a alegria pré-fabricada de um macho negro com pensamento de branco cristão assumir o comando dos EUA.
Vou a Porto mandar um email triste para umas poucas pessoas que amo.

Beijo em ti e nos teus!

PS: não reli para não me arrepender.